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A barriga sem pelo que o gato raspou com a língua
Pelo com a ponta quebrada é lambida, não queda. A lista de causas começa em pulga e alergia, e o estresse fica pro fim.
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Barriga lisa, pelo cortado pela língua
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A falha aparece quase sempre do mesmo jeito. O tutor pega o gato no colo, vira a barriga para cima e encontra uma área rosada, lisa, sem pelo, que vai do umbigo até a parte de dentro das coxas. A pele parece limpa, sem ferida, sem casca, sem vermelhidão forte. O gato não parece doente, come bem e dorme como sempre.
A reação mais comum é pensar em queda. Pelo que cai sozinho lembra velhice, hormônio, doença de pele, e o tutor procura na internet a palavra alopecia (falta de pelo) e se assusta com a lista que aparece. A segunda reação é pensar em nervoso. Mudança de casa, bebê novo, obra no vizinho: o gato estaria arrancando o pelo de ansiedade.
As duas leituras costumam estar erradas, e o erro custa meses. A língua do gato é coberta de papilas (pontas duras e curvas, parecidas com ganchos), e cada passada funciona como uma escova de aço. Quando o gato lambe demais a mesma região, as papilas cortam o fio no meio. O pelo não cai: ele quebra.
A diferença se vê com uma lupa de celular. O fio que caiu sozinho sai inteiro, com a raiz, e a ponta de cima continua fina e afiada. O fio que foi lambido fica preso na pele, curto e com a ponta rombuda, cortada, como pelo aparado por tesoura cega. Veterinários chamam o quadro de alopecia autoinduzida, a falha que o próprio gato produz.
Há outro detalhe que engana o tutor. Muito gato lambe escondido, no quarto vazio, de madrugada, embaixo da cama. A família nunca vê a sessão de lambida e jura que ele não mexe na barriga, porque a língua trabalha quando ninguém está olhando.
Saber que o gato raspou o próprio pelo muda a pergunta. Deixa de ser por que o pelo caiu e vira por que ele lambe tanto. A resposta, na maioria dos casos, está numa coceira que ninguém vê. É o caso da gata que chegou à clínica com diagnóstico pronto de ansiedade e saiu com um pente fino na mão.
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I O Que Ele Esconde
A gata Nina e a barriga lisa
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Nina Fagundes Arruda, gata sem raça definida de cinco anos, apareceu com a barriga lisa num fim de verão em Curitiba. A tutora, Marta Fagundes Arruda, tinha acabado de se mudar para um apartamento maior, e a primeira explicação veio pronta: a gata estava estressada com a casa nova.
Marta leu sobre ansiedade felina, comprou um difusor de feromônio (um aparelho de tomada que libera no ar uma cópia sintética do cheiro que a gata deixa ao esfregar o rosto nos móveis) e esperou. Dois meses depois, a falha tinha crescido e alcançado a parte interna das patas traseiras.
A veterinária, Carla Menezes Tavares, começou pelo pelo. Arrancou alguns fios da borda da falha com uma pinça e olhou no microscópio, um exame chamado tricograma (a leitura do fio ao microscópio). Todos os fios tinham a ponta quebrada. A gata não perdia pelo; ela o cortava com a língua.
Depois, Carla passou um pente fino na base do rabo, com a gata de pé em cima de uma folha branca. No papel caíram pontinhos pretos que pareciam grãos de pimenta. Ela molhou os pontos com um algodão úmido, e eles soltaram um halo vermelho-ferrugem. Eram fezes de pulga, feitas de sangue digerido.
Marta não tinha visto nenhuma pulga. A gata nunca saía de casa. A veterinária explicou que a pulga de gato passa a maior parte da vida fora do animal, nos tapetes e nas frestas do piso, e que gato que se lambe muito engole as pulgas antes que o tutor as veja. O apartamento novo, de carpete antigo, tinha abrigado antes um inquilino com cachorro.
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Gato que se lambe bem esconde a pulga: a prova fica no pente, não no pelo.
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Nina tinha dermatite alérgica à picada de pulga. Nesse quadro, a saliva do inseto provoca uma reação desproporcional no gato alérgico, e uma única picada basta para dias de coceira. O corpo reage à proteína da saliva, e a coceira não guarda relação com o número de pulgas.
O tratamento durou três meses. Nina recebeu antipulgas em pipeta todo mês, assim como o cachorro da irmã de Marta que frequentava a casa, porque todo animal da casa precisa ser tratado. O carpete foi aspirado dia sim, dia não, e o saco do aspirador ia direto para o lixo de fora.
A coceira parou nas primeiras semanas. O pelo levou mais tempo: voltou curto e irregular no segundo mês e cobriu a barriga inteira no terceiro. O difusor de feromônio ficou guardado na gaveta.
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II Painel da Caixa
Os 21 gatos com diagnóstico de nervoso
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A história de Nina tem respaldo num estudo que mudou a forma de os veterinários olharem a barriga pelada. Em 2006, Stephanie Waisglass, Gary Landsberg, Julie Yager e Jean Hall, pesquisadores do Canadá, publicaram no Journal of the American Veterinary Medical Association a investigação de 21 gatos que chegaram com diagnóstico presumido de alopecia psicogênica, a falha de pelo atribuída ao estresse.
Cada gato passou por uma investigação completa. Houve raspado de pele, controle rigoroso de pulgas, biópsia e dieta de eliminação, uma alimentação com proteína que o gato nunca comeu, oferecida sozinha por semanas para testar alergia alimentar.
O resultado virou referência. Dos 21 gatos, só 2 tinham causa puramente comportamental. Em 16, os pesquisadores acharam uma doença física por trás da lambida, e em 3 havia as duas causas juntas. A causa mais frequente foi a reação adversa ao alimento, a alergia alimentar.
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A barriga pelada de estresse existe, mas é o último item da lista, não o primeiro.
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A ordem prática que os dermatologistas veterinários seguem vem desse raciocínio. Primeiro se descarta pulga, porque o teste é barato e a dermatite por pulga é das causas mais comuns de coceira em gato. Depois vêm os fungos, pela cultura do pelo, e os ácaros, pelo raspado.
Só então entra a alergia alimentar. O teste exige paciência: oito semanas de dieta de eliminação, sem petisco, sem pedaço de frango da mesa, sem sachê de outra marca. Um único deslize zera a contagem, e muita família desiste antes de ver o resultado.
Se a coceira some com a dieta e volta quando a ração antiga retorna, está feito o diagnóstico. Se nada muda, a suspeita passa para a dermatite atópica, a alergia a pólen, ácaro de poeira e mofo do ambiente.
Há ainda uma causa que engana por não ser de pele. Dor na bexiga, comum na cistite (inflamação da bexiga) do gato, faz o animal lamber a barriga baixa, bem em cima do órgão. A falha em triângulo entre as coxas pode ser, na verdade, um aviso urinário.
O estresse puro fica no fim. Ele existe, e o gato que perdeu um companheiro de casa ou mudou de rotina pode lamber sem coceira nenhuma. O ponto do estudo de 2006 é outro: chamar de nervoso antes de testar o resto deixa a verdadeira causa sem tratamento por meses.
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