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ED 013

A ferida no focinho que não fecha

Lesão que abre, cicatriza e volta maior no focinho de gato com acesso à rua tem um suspeito com nome, e ele passa do bicho para a casa.

Gato laranja de orelha rasgada parado no alto de um muro de quintal ao amanhecer, com crosta escura no focinho.

Gato de rua no muro, focinho marcado

 

No alto do muro dos fundos, um gato laranja de orelha rasgada parava todas as madrugadas para observar o quintal. A crosta escura no focinho dele tinha sumido em julho e voltado em agosto, maior, com a borda levantada e um líquido claro escorrendo pelo pelo curto.

Ferida que fecha, abre de novo e cresce no focinho de um gato que entra e sai de casa raramente é briga mal curada. Arranhão de disputa cicatriza em poucos dias, e a lesão que insiste por semanas já mudou de categoria.

O suspeito tem nome: esporotricose, infecção causada por fungos do gênero Sporothrix (grupo que vive em madeira, palha e terra de jardim). Na versão que circula pelo Brasil, a espécie Sporothrix brasiliensis, a mais agressiva do grupo, abandonou a rota da roseira espinhosa e passou a viajar de gato para gato, na garra e na mordida.

O Rio de Janeiro virou o centro do problema no fim dos anos 1990. Pesquisadores do Instituto Nacional de Infectologia Evandro Chagas, da Fundação Oswaldo Cruz, começaram a atender em 1998 uma sequência de pacientes humanos ligados ao contato com gatos doentes, e a descrição dessa série, publicada por Mônica Bastos de Lima Barros e colaboradores na revista Clinical Infectious Diseases em 2004, reuniu 178 pessoas, a maioria com histórico de arranhadura ou mordida de gato.

A doença começa pequena e sobe pela pele. Um nódulo no focinho, na orelha ou na pata abre em úlcera, a crosta se instala, novos caroços aparecem seguindo o caminho dos vasos de linfa, e nos casos avançados a cartilagem do nariz cede e o animal passa a respirar com ruído.

O gato macho não castrado com acesso à rua é o perfil que mais aparece nas fichas de atendimento. Ele briga, ele monta, ele cruza território, e a garra contaminada de um deixa o fungo no focinho do outro.

O contágio não para no bicho. O tutor que limpa a ferida sem luva ou leva uma mordida ao empurrar o comprimido entra na mesma cadeia e desenvolve a versão humana da infecção.

O caso a seguir mostra uma casa que tratou a mesma ferida como arranhão por três meses, até a lesão aparecer no braço da tutora.

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I  O Que Ele Esconde

Tobias, o muro do quintal e a crosta que voltou três vezes

Três meses de pomada numa crosta que voltava.

Tobias, gato macho não castrado, quatro anos, pelo curto laranja, morador de uma casa com quintal em Nova Iguaçu, na Baixada Fluminense, passou três meses com uma ferida no focinho tratada como arranhão de briga, e o diagnóstico de esporotricose só saiu quando a tutora, Marlene Ferreira de Souza, apareceu na mesma clínica com um caroço no antebraço. A ficha do animal e o encaminhamento do centro de controle de zoonoses reconstruíram a linha do tempo depois.

Tobias saía pela janela da cozinha ao anoitecer e voltava pela manhã. A casa achava o hábito normal e tratava orelha arranhada como rotina de macho inteiro em bairro com muitos gatos soltos.

A primeira lesão apareceu em março, do lado direito do focinho, do tamanho de uma lentilha. A família passou pomada cicatrizante de farmácia humana por dez dias, viu a crosta secar e considerou o assunto resolvido.

A ferida reabriu em abril, maior, com borda elevada e fundo úmido. A pomada voltou, a crosta secou de novo em duas semanas, e a casa registrou a recaída como briga nova, sem levar o animal a nenhuma consulta.

Em maio a lesão do focinho já não fechava, e dois caroços surgiram na orelha direita e no dorso do nariz, alinhados como contas num cordão. Tobias espirrava com secreção espessa, respirava com ruído audível do outro cômodo e tinha parado de comer ração seca.

O caroço no braço de Marlene apareceu em junho, cerca de três centímetros acima do punho, no lugar exato de uma mordida levada em maio ao tentar aplicar a pomada. O nódulo abriu em úlcera e outros dois surgiram subindo pelo antebraço.

A pomada tratou a crosta enquanto o fungo trabalhava por baixo dela.

A clínica veterinária raspou material da lesão do focinho e fez exame direto da amostra. A citologia mostrou estruturas compatíveis com levedura, a cultura em laboratório confirmou Sporothrix, e o resultado saiu quatro dias depois com o nome da espécie.

O tratamento do gato foi itraconazol, antifúngico em cápsula, dado por via oral todos os dias, sem pausa, com comida gordurosa para melhorar a absorção. A veterinária orientou luva descartável em cada manuseio e proibiu a saída do animal para a rua.

Marlene foi encaminhada a um serviço de infectologia pelo próprio veterinário. Ela recebeu itraconazol por três meses, as lesões do antebraço fecharam e o médico registrou na ficha a transmissão a partir do gato da casa.

Tobias passou a viver dentro de casa em cômodo separado do outro gato da família, com caixa de areia e tigelas próprias. A castração foi feita no terceiro mês, quando o animal já respondia ao remédio e tinha peso para suportar a anestesia.

As lesões do focinho e da orelha fecharam no quarto mês de tratamento. A veterinária manteve o antifúngico por mais trinta dias depois da cicatrização completa e só deu alta com duas avaliações clínicas seguidas sem nódulo novo.

A casa mudou de arranjo no processo. A janela da cozinha ganhou tela, o quintal deixou de ser rota de passagem para o gato, a luva descartável virou item fixo do armário e a família passou a olhar focinho, orelhas e patas dos dois animais toda semana, sob a luz da janela.

A origem exata do fungo nunca foi rastreada. Não se sabe qual gato da vizinhança contaminou Tobias, nem em que briga a garra alcançou o focinho, porque nenhum animal da rua foi capturado para exame, e a veterinária registrou o gatilho como contato desconhecido em área com casos confirmados.

 
 

II  Painel da Caixa

O fungo que viaja na garra

O Sporothrix não precisa do gato para existir. Ele vive na matéria orgânica em decomposição, em espinho de roseira, em palha, em madeira velha e na terra de canteiro, e por décadas a infecção humana foi conhecida como doença de jardineiro, de florista e de quem cava buraco sem luva.

O gato mudou a rota da infecção no Brasil. As lesões abertas do animal doente acumulam uma quantidade enorme de leveduras, muito acima do que se encontra na terra contaminada, e a garra, o dente e a secreção do nariz viram veículo direto do fungo para a pele de outro gato ou de uma pessoa.

Basta a garra de um gato doente alcançar a pele para a infecção começar, sem ferimento em terra, sem espinho de planta e sem jardim envolvido, e um único animal com lesão aberta no focinho contamina os outros gatos da casa e o tutor que o medica sem luva.

A Baixada Fluminense e a zona norte do Rio concentraram o avanço. A doença caminhou de bairro em bairro acompanhando a população de gatos livres e não castrados, e chegou a outros estados pela mesma via.

Isabella Dib Ferreira Gremião e colaboradores, do Instituto Nacional de Infectologia Evandro Chagas, descreveram a dimensão da epidemia em artigo publicado na revista PLOS Pathogens em 2017, com atenção ao papel do gato doente como fonte da infecção humana.

"A transmissão zoonótica pelo gato é a principal via de infecção humana por Sporothrix brasiliensis no Brasil, e os animais com lesões abertas carregam grande quantidade de fungo."

Isabella Dib Ferreira Gremião e colaboradores, PLOS Pathogens, 2017

O diagnóstico é simples quando alguém pensa nele. O veterinário raspa a lesão, olha o material no microscópio, encontra as leveduras em forma de charuto dentro das células de defesa e confirma por cultura, tudo com material colhido no próprio consultório.

A confusão mais cara acontece nesse ponto. Ferida de esporotricose é tratada como arranhão infectado, recebe antibiótico e pomada, melhora por fora enquanto o fungo segue trabalhando por baixo, e o animal chega ao tratamento certo meses depois, com o nariz comprometido e a casa inteira exposta.

No humano a doença costuma seguir o trajeto da linfa. Um nódulo aparece no ponto da arranhadura, abre em ferida, outros surgem subindo pelo braço em linha, e o quadro pede antifúngico oral por meses, nunca pomada.

O abandono do animal doente alimenta o problema. Gato solto com lesão aberta espalha o fungo pela vizinhança, entra em briga, contamina outros bichos e devolve a infecção à mesma rua de onde ela saiu, e o tratamento em casa custa menos que o ciclo que o abandono abre.

O prognóstico do gato tratado a tempo é bom. Lesão única de pele, diagnosticada cedo e tratada com antifúngico contínuo, costuma fechar em poucos meses, e o remédio abandonado na primeira melhora transforma caso simples em recaída.

 

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III  Mapa do Território

A tela na janela, a luva no armário e as cinco conferências da semana

Primeiro passo: trate ferida que não fecha em duas semanas como caso de consulta, nunca de pomada. Leve o animal à clínica e peça exame do material da lesão, porque crosta que seca e reabre no mesmo lugar é sinal de infecção ativa embaixo.

Segundo passo: mantenha o gato dentro de casa, com tela em janela, sacada e área de serviço. A prevenção começa e quase termina aqui, porque o fungo chega pela briga na rua, e o animal que não cruza território não encontra a garra contaminada do vizinho.

Terceiro passo: castre o macho. Animal inteiro briga mais, cruza mais quintais e chega mais longe atrás de fêmea, e a castração derruba a exposição ao contato que transmite a infecção.

Quarto passo: use luva descartável em cada manuseio de ferida e em cada medicação de gato doente. Descarte a luva depois do uso, lave as mãos com água e sabão e leve qualquer nódulo da sua própria pele ao médico, informando o contato com o animal.

Quinto passo: mantenha o antifúngico até a alta do veterinário, nunca até a ferida fechar. O remédio segue por pelo menos um mês depois da cicatrização completa, e o gato em tratamento fica separado dos outros animais da casa até a liberação.

A conferência semanal leva dois minutos. Sob luz de janela, olhe focinho, dorso do nariz, orelhas e patas do animal, passe a mão procurando caroço embaixo do pelo e trate qualquer lesão elevada e persistente como motivo de consulta na mesma semana.

A prevenção da esporotricose cabe numa decisão de arquitetura doméstica: gato que não sai não briga, e gato que não briga não recebe a garra que carrega o fungo, o que torna a tela na janela mais eficiente que qualquer remédio comprado depois.

"Quando foi a última vez que olhei o focinho do meu gato de perto?"

 
 
 
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O estudo que descreveu a epidemia de esporotricose ligada a gatos no Rio de Janeiro, publicado em 2004 na revista Clinical Infectious Diseases, reuniu quantas pessoas infectadas?

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C178 pessoas
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