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A gata que abriu a boca deitada no tapete
Gato não ofega como cão: boca aberta em repouso quer dizer ar faltando, e o motivo mora no pulmão ou no coração.
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Gata em repouso com a boca entreaberta
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Uma gata deitada no tapete da sala, sem ter corrido e sem ter brincado, está com a boca entreaberta e a ponta da língua aparecendo. O peito sobe e desce rápido, a barriga puxa a cada volta de ar, e ela não fecha a boca nem quando alguém chama pelo apelido. A casa acha graça e tira foto, porque a cena lembra cachorro cansado.
Cachorro ofega para perder calor. Ele abre a boca, põe a língua para fora e troca o ar quente do peito pelo ar da sala dezenas de vezes por minuto. O gato quase não usa esse recurso: respira pelo nariz, de boca fechada, e se refresca lambendo o pelo e deitando em piso frio.
Por essa diferença, a boca aberta num gato parado conta outra história. Ela aparece depois de brincadeira pesada, de viagem de carro ou de consulta estressante, e some em poucos minutos de sossego. Quando surge no sofá, sem esforço antes, o corpo está pedindo um ar que o nariz sozinho não consegue entregar.
A falta de ar felina tem duas fontes principais. Uma é o pulmão, com asma felina, pneumonia ou tumor. A outra é o coração, que falha e deixa líquido vazar para dentro do pulmão ou para o espaço pleural, a bolsa fina que envolve os pulmões por fora.
O gato esconde a falta de ar por semanas. Ele dorme mais, sobe menos na janela, desiste da bolinha no corredor, e a família lê cansaço de idade. A boca aberta chega tarde, quando a reserva do corpo já acabou.
Um número ajuda a enxergar antes da crise. Ingrid Ljungvall, Mark Rishniw e colegas publicaram no Journal of Feline Medicine and Surgery, em 2014, a contagem de respirações de gatos dormindo em casa, feita pelos próprios tutores: nos animais saudáveis, a frequência ficou abaixo de 30 respirações por minuto.
A seção seguinte acompanha a noite de uma gata de nove anos que abriu a boca no tapete e chegou à clínica com o peito cheio de líquido.
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I O Que Ele Esconde
Amora, o tapete da sala e a caixa de transporte às onze da noite
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Amora, gata sem raça definida de nove anos, quatro quilos e trezentos, moradora de uma casa em Londrina, foi levada ao pronto atendimento veterinário às onze da noite de uma terça-feira depois de passar vinte minutos deitada no tapete respirando de boca aberta. A tutora, Beatriz Fontoura Lemos, contou quarenta e oito respirações num minuto pelo relógio do celular e decidiu sair de casa na mesma hora.
Os sinais anteriores estavam espalhados pela semana. Amora tinha deixado de dormir no parapeito da janela, que exige um salto de um metro, e passou a ficar no chão da cozinha, deitada de peito para baixo e cotovelos abertos.
Beatriz também reparou que a gata comia menos. A ração da manhã sobrava no pote, e o petisco da noite, recebido sempre com miado alto, ficou intocado duas vezes seguidas.
Na terça, a cena mudou de tom. Depois do jantar, Amora caminhou até o tapete, deitou de lado, voltou para a posição de esfinge e abriu a boca. O flanco puxava em dois tempos, e as gengivas, vistas de relance, estavam mais claras que o normal.
A viagem de quinze minutos foi feita com a caixa de transporte coberta por uma toalha e sem abrir a porta no caminho. A veterinária de plantão, Carolina Mesquita Arruda, recebeu a gata ainda dentro da caixa e ligou o oxigênio sem encostar nela.
Amora passou os primeiros dez minutos numa caixa de oxigênio, um compartimento de acrílico com ar enriquecido, sem manipulação. Gato com falta de ar grave pode parar de respirar quando é contido à força para exame.
O ultrassom rápido do tórax, feito com a gata deitada de peito no colchonete, mostrou líquido em volta dos dois pulmões. A veterinária retirou o líquido com agulha, procedimento chamado toracocentese (punção do tórax), e saíram cento e oitenta mililitros de fluido amarelado.
A respiração caiu para trinta e seis por minuto em meia hora, e a boca fechou. O exame do coração, o ecocardiograma (ultrassom que mostra as câmaras e as paredes), veio na manhã seguinte e explicou a origem.
A parede do ventrículo esquerdo de Amora media oito milímetros de espessura, quando o esperado fica abaixo de seis, e o átrio esquerdo estava dilatado. O diagnóstico foi cardiomiopatia hipertrófica, o engrossamento do músculo cardíaco que deixa o coração rígido e faz o sangue represar para trás, até vazar pelos vasos do pulmão.
Amora saiu da clínica em três dias com furosemida, diurético que tira o excesso de líquido do corpo, e clopidogrel, remédio que reduz o risco de coágulo dentro do átrio dilatado. Beatriz levou para casa uma folha para anotar a respiração da gata dormindo, duas vezes por dia.
Dois meses depois, a contagem noturna de Amora estava entre vinte e dois e vinte e seis respirações por minuto, e a gata tinha voltado ao parapeito. O líquido não voltou a se acumular nesse período.
A ficha registra uma lacuna sem resolução: a clínica não tem como saber há quanto tempo o coração vinha engrossando. Amora nunca tinha feito ecocardiograma, e a doença não produz sopro audível em parte dos gatos, então o estetoscópio da vacina anual não teria acusado o problema.
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II Painel da Caixa
Trinta respirações por minuto e um músculo que engrossa calado
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A respiração do gato saudável em repouso é quase invisível. O peito sobe pouco, a barriga acompanha de leve, o ciclo é regular, e a boca fica fechada o tempo todo.
A frequência que importa é a do sono. Acordado, o gato cheira, ronrona e se agita, e a contagem sobe por motivos inofensivos. Dormindo, o corpo está no mínimo de esforço, e a respiração mostra o estado real do pulmão e do coração.
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Contagem de sono acima de 30 respirações por minuto, repetida em dois dias seguidos, pede consulta na semana. Acima de 40, ou com boca aberta, gengiva pálida ou arroxeada e cotovelos afastados do peito, pede pronto atendimento na mesma noite.
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A cardiopatia mais comum em gato é justamente a hipertrófica. Joanna Payne, David Brodbelt e Virginia Luis Fuentes, do Royal Veterinary College, em Londres, examinaram com ecocardiograma 780 gatos aparentemente saudáveis de abrigos para adoção e publicaram no Journal of Veterinary Cardiology, em 2015, que 14,7% deles tinham a doença.
Esses gatos não mostravam sintoma nenhum. A doença pode ficar anos sem sinal e se revelar de repente, pela falta de ar ou por um coágulo que desce pela aorta e paralisa as patas traseiras, quadro chamado tromboembolismo arterial.
Algumas raças carregam mutação genética conhecida para o quadro, com teste disponível em laboratório: Maine Coon e Ragdoll são os exemplos mais estudados. Gato sem raça definida também desenvolve a doença, e a maioria dos casos em clínica é de animais mestiços.
O pulmão responde pelo outro grande grupo de crises. A asma felina estreita os brônquios, os tubos que levam ar ao pulmão, e costuma vir com tosse seca, em que o gato estica o pescoço rente ao chão como se fosse vomitar e nada sai. O tratamento usa corticoide e, nas crises, broncodilatador inalado com espaçador (tubo que segura a dose do spray) e máscara própria para gato.
A distinção entre coração e pulmão sai dos exames, nunca do olho do tutor. Radiografia de tórax, ultrassom e, quando dá, um exame de sangue chamado NT-proBNP, que mede um hormônio liberado pelo músculo cardíaco sob estiramento, separam os dois caminhos.
O tratamento muda muito entre eles. Dar corticoide a um gato com coração doente pode piorar a retenção de líquido, e dar diurético a um gato asmático não abre os brônquios.
Por esse motivo, a casa não deve medicar a falta de ar por conta própria. O trabalho da família é notar cedo, contar e transportar com calma.
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