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ED 019
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A pipeta do cão que fez a gata tremer

A permetrina do antipulgas de cão vira veneno de nervo no gato, pela pipeta errada ou pelo pelo do cão tratado.

Gata tensa ao lado de um cão e de uma pipeta antipulgas aberta.

Pipeta de cão, perigo no gato

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Sábado de manhã, a caixa de antipulgas está aberta na pia da área de serviço. Dentro, pipetas plásticas com a foto de um labrador no rótulo e a faixa de peso em letra grande: cães de dez a vinte e cinco quilos. Na casa vivem um cão e um gato, e a caixa do gato acabou na semana anterior.

A conta parece simples. O gato pesa menos, então meia pipeta resolve. Ou um terço. O líquido foi indicado pelo veterinário para o cão, é vendido em pet shop sem receita, e ninguém imagina que o remédio de um bicho faça mal a outro bicho da mesma casa.

O princípio ativo de muitas dessas pipetas de cão é a permetrina, um inseticida da família dos piretroides (versões sintéticas de uma substância extraída da flor do crisântemo). No cão, ela elimina pulga e carrapato e sai do corpo sem estrago. No gato, fica.

O fígado felino processa mal esse tipo de molécula. A permetrina se acumula e atinge os nervos, que passam a disparar sem parar. Os primeiros sinais aparecem em poucas horas: tremor fino nas orelhas e no rosto, baba, pupila dilatada, andar trôpego. Sem atendimento, o tremor evolui para convulsão.

Diluir não salva. Um terço da pipeta ainda carrega permetrina demais para um gato de quatro quilos, porque o produto de cão vem muito concentrado para cobrir um corpo grande.

O gato também pode se intoxicar sem que ninguém encoste a pipeta nele. Basta dormir colado no cão tratado naquela tarde, ou lamber o pelo do companheiro como faz todo dia. O produto fica espalhado no pelo e na pele do cão por horas depois da aplicação.

A seção seguinte acompanha uma gata de três anos que recebeu um terço da pipeta do cão numa manhã de sábado e chegou à clínica tremendo antes do almoço.

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I  O Que Ele Esconde

Nina, um terço de pipeta e o tremor antes do almoço

Nina Soares Brandão, gata sem raça definida de três anos e três quilos e meio, moradora de um apartamento em Joinville, chegou à clínica num sábado às onze e meia, embrulhada numa toalha. A tutora, Camila Brandão, contou que tinha aplicado na nuca da gata um terço da pipeta antipulgas do cão da casa às oito da manhã.

Por volta das dez, Nina começou a sacudir as orelhas como se houvesse água dentro. Depois vieram tremores pequenos no focinho e nas bochechas, uma baba grossa escorrendo pelo queixo e um andar de lado, com as patas traseiras abertas.

O veterinário de plantão, Eduardo Lemos Farias, encontrou a gata com as pupilas dilatadas, a temperatura em 40,1 °C e contrações rápidas nos músculos das costas, visíveis por baixo do pelo. A febre, nesse quadro, vem do próprio tremor: músculo que não para produz calor.

Camila levou a caixa. O rótulo trazia permetrina como princípio ativo e, na lateral, em letra pequena, a frase "não usar em gatos". Ela disse que tinha visto a foto do cachorro, mas não o aviso.

O primeiro cuidado foi controlar os tremores. Eduardo aplicou na veia metocarbamol, um relaxante muscular usado nesse tipo de intoxicação, e deixou um anticonvulsivante (remédio que interrompe convulsão) preparado ao lado da mesa. Perto do meio-dia, Nina teve uma convulsão curta, de menos de um minuto, controlada com a segunda medicação.

Com a gata mais estável, veio o banho. A equipe lavou a nuca e o dorso com água morna e detergente de louça comum, que tira a oleosidade onde a permetrina fica presa. A água não podia estar fria, porque gato molhado e sedado perde calor rápido e a temperatura despenca do excesso para a falta.

Nina ficou internada dois dias, com soro na veia, controle de temperatura a cada hora e uma infusão de emulsão lipídica (gordura em solução, dada na veia), que ajuda a retirar do sangue substâncias que se dissolvem em gordura, como a permetrina.

Os tremores diminuíram na primeira noite e sumiram na manhã de segunda. Nina voltou a comer sozinha e foi para casa com a orientação de ficar num cômodo separado do cão por alguns dias. O cão também tinha recebido a pipeta, e o produto ainda estava no pelo dele.

Na revisão, uma semana depois, Nina estava sem sequela. Camila guardou as pipetas do cão numa gaveta alta e comprou para a gata um antipulgas próprio para felinos, indicado pelo veterinário.

O caso terminou bem porque o intervalo entre a aplicação e o atendimento foi curto. Sem banho e sem remédio, a permetrina continuaria atravessando a pele da nuca durante horas, e cada hora somaria dose ao sangue.

 
 

II  Painel da Caixa

Um fígado sem a enzima que desmonta o inseticida

A permetrina age no canal de sódio dos neurônios, a porta que abre e fecha para o impulso nervoso passar. O inseticida mantém a porta aberta por mais tempo, e o nervo dispara em série. Na pulga, o efeito paralisa. No mamífero, tudo depende da velocidade com que o fígado elimina a molécula.

O cão e a gente eliminam a permetrina pela glicuronidação, uma reação do fígado que gruda uma molécula derivada de açúcar no composto para ele sair na urina. O gato tem pouca atividade das enzimas que fazem essa ligação, as UDP-glicuronosiltransferases (as enzimas da glicuronidação). Pelo mesmo motivo, o gato reage mal ao paracetamol.

Sem essa via funcionando, a permetrina fica mais tempo circulando e chega ao cérebro em quantidade. Os sinais seguem a ordem do nervo irritado: tremor, contração muscular, baba, febre, cegueira passageira e, nos casos graves, convulsão.

A dose que faz mal ao gato é pequena porque a pipeta de cão foi feita para cobrir o corpo de um animal grande. Nem uma fração dela fica abaixo do que o gato tolera.

Filhote, gato idoso e gato muito magro tendem a sofrer mais, porque o fígado deles já trabalha perto do limite e o corpo tem menos reserva para atravessar horas de tremor.

Tremor no rosto, baba, pupila dilatada ou andar trôpego depois de antipulgas no gato, ou depois de ele ficar perto do cão tratado, pede clínica na mesma hora. Leve a caixa do produto.

O contato indireto está documentado. Carolyn Boland e John Angles, veterinários australianos, publicaram em 2010 no Journal of Feline Medicine and Surgery uma revisão de 42 gatos intoxicados por permetrina. Na maioria, o dono tinha aplicado produto de cão no próprio gato, e o estudo registrou também gatos intoxicados pela convivência com o cão recém-tratado.

Na mesma revisão, os sinais surgiram em geral poucas horas depois da exposição, e a maior parte dos gatos tratados com relaxante muscular, banho e suporte se recuperou. O atraso no atendimento pesou mais que a quantidade aplicada.

Nem toda pipeta de cão leva permetrina. Produtos com fipronil (inseticida que bloqueia outro canal do nervo da pulga) têm versão para gato. A regra prática dispensa decorar princípio ativo: produto de cão não vai no gato, em dose nenhuma.

Coleira antipulgas de cão, xampu, spray para ambiente e talco antipulgas com permetrina também entram na lista. O risco acompanha a molécula, qualquer que seja o formato da embalagem.

 

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III  Mapa do Território

A gaveta alta, o cão isolado e a água morna

Primeiro passo: compre o antipulgas do gato pela espécie escrita na caixa, com indicação do veterinário. Procure "gato" ou "felino" no rótulo e a faixa de peso do seu animal. Foto de gato na embalagem ajuda, mas o texto manda.

Segundo passo: guarde o produto do cão longe do produto do gato, em gaveta ou prateleira separada. Pipetas de marcas diferentes se parecem, e a troca acontece no sábado de pressa.

Terceiro passo: quando o cão receber pipeta com permetrina, mantenha o gato em outro cômodo até o produto secar no pelo, pelo prazo que a bula indicar. Nada de dormirem juntos, e nada de o gato lamber o cão nessa janela.

Quarto passo: pergunte ao veterinário se existe opção sem permetrina para o cão. Em casa com gato, muitos profissionais preferem outro princípio ativo também para o cão, porque some o risco do contato.

Quinto passo: se o gato recebeu o produto ou ficou em contato e começou a tremer, ligue para a clínica e saia. Não dê banho frio, não passe óleo e não dê remédio de gente. Leve a caixa ou a pipeta usada.

Se a exposição acabou de acontecer e o gato ainda está calmo, o veterinário pode orientar pelo telefone um banho em casa com água morna e detergente de louça, esfregando a região da aplicação e secando bem com toalha. Com o gato já tremendo, o banho caseiro só atrasa o atendimento.

Depois do susto, observe o gato por um ou dois dias: o rosto, as orelhas, a baba, o apetite e a temperatura das orelhas ao toque. Tremor que volta, mesmo leve, é motivo para ligar de novo.

Em casa com vários gatos, a regra vale para todos. Um gato que recebeu o produto pode passar a permetrina para o outro na lambida de limpeza mútua, então o exposto fica separado dos demais até o banho feito na clínica. Conte ao veterinário quantos animais dividem o mesmo sofá.

Pipeta de cão nunca vai no gato, nem um terço, nem uma gota. E o cão recém-tratado dorme longe do gato até o produto secar.

"Qual antipulgas está hoje na sua gaveta, e qual espécie aparece escrita na caixa?"

 
 
 
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