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A pipeta do cão que fez a gata tremer
A permetrina do antipulgas de cão vira veneno de nervo no gato, pela pipeta errada ou pelo pelo do cão tratado.
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Pipeta de cão, perigo no gato
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Sábado de manhã, a caixa de antipulgas está aberta na pia da área de serviço. Dentro, pipetas plásticas com a foto de um labrador no rótulo e a faixa de peso em letra grande: cães de dez a vinte e cinco quilos. Na casa vivem um cão e um gato, e a caixa do gato acabou na semana anterior.
A conta parece simples. O gato pesa menos, então meia pipeta resolve. Ou um terço. O líquido foi indicado pelo veterinário para o cão, é vendido em pet shop sem receita, e ninguém imagina que o remédio de um bicho faça mal a outro bicho da mesma casa.
O princípio ativo de muitas dessas pipetas de cão é a permetrina, um inseticida da família dos piretroides (versões sintéticas de uma substância extraída da flor do crisântemo). No cão, ela elimina pulga e carrapato e sai do corpo sem estrago. No gato, fica.
O fígado felino processa mal esse tipo de molécula. A permetrina se acumula e atinge os nervos, que passam a disparar sem parar. Os primeiros sinais aparecem em poucas horas: tremor fino nas orelhas e no rosto, baba, pupila dilatada, andar trôpego. Sem atendimento, o tremor evolui para convulsão.
Diluir não salva. Um terço da pipeta ainda carrega permetrina demais para um gato de quatro quilos, porque o produto de cão vem muito concentrado para cobrir um corpo grande.
O gato também pode se intoxicar sem que ninguém encoste a pipeta nele. Basta dormir colado no cão tratado naquela tarde, ou lamber o pelo do companheiro como faz todo dia. O produto fica espalhado no pelo e na pele do cão por horas depois da aplicação.
A seção seguinte acompanha uma gata de três anos que recebeu um terço da pipeta do cão numa manhã de sábado e chegou à clínica tremendo antes do almoço.
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I O Que Ele Esconde
Nina, um terço de pipeta e o tremor antes do almoço
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Nina Soares Brandão, gata sem raça definida de três anos e três quilos e meio, moradora de um apartamento em Joinville, chegou à clínica num sábado às onze e meia, embrulhada numa toalha. A tutora, Camila Brandão, contou que tinha aplicado na nuca da gata um terço da pipeta antipulgas do cão da casa às oito da manhã.
Por volta das dez, Nina começou a sacudir as orelhas como se houvesse água dentro. Depois vieram tremores pequenos no focinho e nas bochechas, uma baba grossa escorrendo pelo queixo e um andar de lado, com as patas traseiras abertas.
O veterinário de plantão, Eduardo Lemos Farias, encontrou a gata com as pupilas dilatadas, a temperatura em 40,1 °C e contrações rápidas nos músculos das costas, visíveis por baixo do pelo. A febre, nesse quadro, vem do próprio tremor: músculo que não para produz calor.
Camila levou a caixa. O rótulo trazia permetrina como princípio ativo e, na lateral, em letra pequena, a frase "não usar em gatos". Ela disse que tinha visto a foto do cachorro, mas não o aviso.
O primeiro cuidado foi controlar os tremores. Eduardo aplicou na veia metocarbamol, um relaxante muscular usado nesse tipo de intoxicação, e deixou um anticonvulsivante (remédio que interrompe convulsão) preparado ao lado da mesa. Perto do meio-dia, Nina teve uma convulsão curta, de menos de um minuto, controlada com a segunda medicação.
Com a gata mais estável, veio o banho. A equipe lavou a nuca e o dorso com água morna e detergente de louça comum, que tira a oleosidade onde a permetrina fica presa. A água não podia estar fria, porque gato molhado e sedado perde calor rápido e a temperatura despenca do excesso para a falta.
Nina ficou internada dois dias, com soro na veia, controle de temperatura a cada hora e uma infusão de emulsão lipídica (gordura em solução, dada na veia), que ajuda a retirar do sangue substâncias que se dissolvem em gordura, como a permetrina.
Os tremores diminuíram na primeira noite e sumiram na manhã de segunda. Nina voltou a comer sozinha e foi para casa com a orientação de ficar num cômodo separado do cão por alguns dias. O cão também tinha recebido a pipeta, e o produto ainda estava no pelo dele.
Na revisão, uma semana depois, Nina estava sem sequela. Camila guardou as pipetas do cão numa gaveta alta e comprou para a gata um antipulgas próprio para felinos, indicado pelo veterinário.
O caso terminou bem porque o intervalo entre a aplicação e o atendimento foi curto. Sem banho e sem remédio, a permetrina continuaria atravessando a pele da nuca durante horas, e cada hora somaria dose ao sangue.
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II Painel da Caixa
Um fígado sem a enzima que desmonta o inseticida
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A permetrina age no canal de sódio dos neurônios, a porta que abre e fecha para o impulso nervoso passar. O inseticida mantém a porta aberta por mais tempo, e o nervo dispara em série. Na pulga, o efeito paralisa. No mamífero, tudo depende da velocidade com que o fígado elimina a molécula.
O cão e a gente eliminam a permetrina pela glicuronidação, uma reação do fígado que gruda uma molécula derivada de açúcar no composto para ele sair na urina. O gato tem pouca atividade das enzimas que fazem essa ligação, as UDP-glicuronosiltransferases (as enzimas da glicuronidação). Pelo mesmo motivo, o gato reage mal ao paracetamol.
Sem essa via funcionando, a permetrina fica mais tempo circulando e chega ao cérebro em quantidade. Os sinais seguem a ordem do nervo irritado: tremor, contração muscular, baba, febre, cegueira passageira e, nos casos graves, convulsão.
A dose que faz mal ao gato é pequena porque a pipeta de cão foi feita para cobrir o corpo de um animal grande. Nem uma fração dela fica abaixo do que o gato tolera.
Filhote, gato idoso e gato muito magro tendem a sofrer mais, porque o fígado deles já trabalha perto do limite e o corpo tem menos reserva para atravessar horas de tremor.
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Tremor no rosto, baba, pupila dilatada ou andar trôpego depois de antipulgas no gato, ou depois de ele ficar perto do cão tratado, pede clínica na mesma hora. Leve a caixa do produto.
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O contato indireto está documentado. Carolyn Boland e John Angles, veterinários australianos, publicaram em 2010 no Journal of Feline Medicine and Surgery uma revisão de 42 gatos intoxicados por permetrina. Na maioria, o dono tinha aplicado produto de cão no próprio gato, e o estudo registrou também gatos intoxicados pela convivência com o cão recém-tratado.
Na mesma revisão, os sinais surgiram em geral poucas horas depois da exposição, e a maior parte dos gatos tratados com relaxante muscular, banho e suporte se recuperou. O atraso no atendimento pesou mais que a quantidade aplicada.
Nem toda pipeta de cão leva permetrina. Produtos com fipronil (inseticida que bloqueia outro canal do nervo da pulga) têm versão para gato. A regra prática dispensa decorar princípio ativo: produto de cão não vai no gato, em dose nenhuma.
Coleira antipulgas de cão, xampu, spray para ambiente e talco antipulgas com permetrina também entram na lista. O risco acompanha a molécula, qualquer que seja o formato da embalagem.
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