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A planta da sala que queima a boca do gato
Comigo-ninguém-pode, jiboia e espada de São Jorge irritam boca e estômago. Samambaia e areca entram na sala sem risco.
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A folha larga na altura do focinho
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O vaso chegou num sábado de setembro, embrulhado em papel pardo, com uma etiqueta escrita à mão: comigo-ninguém-pode, folha grande. Foi parar no chão da sala, perto da janela, porque ali batia sol de manhã. O gato da casa levou menos de uma hora para chegar até ele.
Primeiro cheirou a terra. Depois esfregou a bochecha na borda do vaso, marcando o objeto novo como parte do território. Por fim, mordeu a ponta de uma folha, do jeito que morde o capim do quintal. Bastou uma mordida.
O que aconteceu em seguida durou poucos segundos. O gato sacudiu a cabeça, abriu a boca como quem quer cuspir e começou a babar um fio grosso e transparente. Esfregou a pata no focinho várias vezes. Correu para baixo do sofá e de lá não saiu.
A tutora achou que ele tinha engolido um inseto. Só à noite, ao ver a folha com a marca dos dentes, ligou a folha ao sintoma. A planta que tinha sido escolhida pela beleza e pela fama de proteger a casa era a mesma que estava queimando a boca do gato.
Setembro é o mês em que muita gente reforma a sala para a primavera. Os viveiros enchem as prateleiras com as plantas que aguentam pouca luz e pouca água, justamente as preferidas de quem mora em apartamento. Três delas aparecem em quase toda vitrine: a comigo-ninguém-pode, a jiboia e a espada de São Jorge.
As três têm defesa química contra quem as morde. Não ameaçam a vida de um gato adulto saudável na maioria dos casos, mas causam dor, baba, vômito e uma ida à clínica que podia ter sido evitada no balcão do viveiro.
O gato não come planta por fome. Ele mastiga folha por curiosidade, por tédio, para ajudar a soltar pelo do estômago ou porque a folha balança com o vento. Uma planta nova no chão da sala é, para ele, um brinquedo que apareceu do nada.
A boa notícia é que a lista de plantas seguras existe, tem dono e cabe num papel dobrado na carteira. A história de uma gata de Belo Horizonte mostra como a mordida acontece por dentro.
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I O Que Ele Esconde
Jabuticaba e a folha mordida perto da janela
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Jabuticaba Duarte Lins, gata preta de dois anos, castrada e sem raça definida, morava com o tutor Rafael Duarte Lins num apartamento no bairro Santa Efigênia, em Belo Horizonte. Rafael trabalhava de casa e tinha decidido dar vida nova à sala comprando três vasos numa feira de plantas.
Levou uma jiboia para pendurar na estante, uma espada de São Jorge para o canto da porta e uma comigo-ninguém-pode para o chão, perto da janela. Escolheu as três porque o vendedor garantiu que “não morrem nem se a gente esquecer de regar”. Ninguém perguntou se havia gato em casa.
Jabuticaba ignorou a espada de São Jorge, de folha dura e reta. A jiboia ficou alta demais na estante. A comigo-ninguém-pode, com folhas largas na altura do focinho, foi a escolhida. Rafael ouviu um barulho de tosse seca vindo da sala no começo da tarde.
Encontrou a gata babando sem parar, com a boca entreaberta e a língua para fora. Ela passava a pata no rosto e balançava a cabeça como quem tenta tirar algo grudado. Rafael viu a folha rasgada no chão e entendeu na hora de onde vinha o problema.
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Gata que baba e esfrega a pata na boca logo depois de mexer num vaso mordeu a folha, e a dor começou no primeiro segundo.
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Ele lavou a boca de Jabuticaba com um pano molhado em água fria, por fora, sem forçar, e ligou para a clínica da veterinária Helena Cordeiro Paiva. Helena pediu que ele levasse a gata e um pedaço da folha mordida, para confirmar a espécie.
No exame, a língua e a gengiva estavam vermelhas e inchadas, com pequenas manchas esbranquiçadas no ponto da mordida. Helena explicou a Rafael o que tinha acontecido: a folha da comigo-ninguém-pode guarda feixes de cristais de oxalato de cálcio em forma de agulha, os ráfides (cristais finíssimos, pontudos como espinhos de vidro). Quando o dente rompe a célula, os cristais são disparados para fora e se cravam na mucosa (a pele fina e úmida que forra a boca por dentro).
A dor é imediata e mecânica, como esfregar lã de vidro na gengiva. A baba é a resposta do corpo para lavar os cristais. Jabuticaba recebeu analgésico, um protetor para o estômago e ficou em observação por algumas horas. Vomitou uma vez, no fim da tarde, e à noite já aceitava água.
Voltou para casa no dia seguinte, comendo ração úmida. A comigo-ninguém-pode e a jiboia foram doadas para a vizinha de baixo, que não tem bicho. A espada de São Jorge saiu dois dias depois, quando Rafael descobriu que ela também estava na lista.
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II Painel da Caixa
O que cada folha guarda contra a mordida
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A ASPCA (Sociedade Americana para a Prevenção da Crueldade contra Animais) mantém, por meio do seu Centro de Controle de Venenos Animais, a lista mais consultada por veterinários sobre plantas tóxicas e seguras para gatos. Cada planta aparece com o nome científico, o princípio tóxico e os sinais esperados.
A comigo-ninguém-pode (Dieffenbachia, nome do gênero botânico) aparece como tóxica para gatos e cães. O princípio é o oxalato de cálcio insolúvel, o mesmo cristal em agulha que feriu Jabuticaba. Os sinais listados são irritação oral, dor intensa e inchaço na boca, na língua e nos lábios, baba excessiva, vômito e dificuldade para engolir.
A jiboia (Epipremnum aureum, o nome científico da trepadeira de folha em coração) carrega o mesmo tipo de cristal. Os sintomas são parecidos, e o risco aumenta quando ela pende da estante e os ramos chegam ao chão, ao alcance da pata. Ramo que balança é convite para a caça.
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Planta pendurada não fica longe do gato: ramo que desce até o chão vira brinquedo e vira mordida.
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A espada de São Jorge (Sansevieria, gênero que inclui a lança de São Jorge) funciona de outro jeito. Ela não tem os cristais em agulha. Na lista da ASPCA, o princípio tóxico são as saponinas (substâncias que espumam na água e irritam o estômago e o intestino). O gato que mastiga a folha costuma ter náusea, vômito e diarreia, sem a dor imediata na boca.
Essa diferença muda o que o tutor vê. A comigo-ninguém-pode e a jiboia denunciam a mordida na hora, com baba e pata no focinho. A espada de São Jorge pode passar despercebida até o vômito aparecer horas depois, longe do vaso, sem nenhuma pista ligando uma ao outro.
Do outro lado da lista estão as plantas que a ASPCA classifica como não tóxicas para gatos. A samambaia (Nephrolepis exaltata, a samambaia de folha recortada que pende dos vasos) é uma delas. A areca (Dypsis lutescens, a palmeira de folhas finas e amareladas na base) é outra. Ambas aguentam ambiente interno e meia sombra.
Não tóxica não quer dizer comestível. Um gato que mastiga muita samambaia pode vomitar pelo simples volume de fibra no estômago, como acontece com o capim. A diferença é que o vômito passa sozinho e não vem acompanhado de cristal cravado na gengiva nem de substância irritante.
Há um cuidado que vale para toda planta comprada: o adubo e o defensivo agrícola aplicados no viveiro. Folha brilhante demais pode ter recebido produto para dar lustro, e terra com grânulos azuis ou brancos costuma ter fertilizante. Lavar as folhas e trocar a camada de cima da terra antes de levar o vaso para a sala reduz esse risco extra.
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