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A ponta da orelha branca que queima atrás do vidro
O vidro da janela segura parte do sol, não todo. Na orelha sem pigmento, a crosta que volta no mesmo ponto pede o veterinário.
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Orelha branca, sol que atravessa o vidro
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O lugar preferido fica sempre no mesmo canto. O gato sobe no parapeito logo depois do café, deita de lado contra o vidro fechado e passa a manhã inteira ali, de olhos meio abertos, acompanhando o sol que anda pelo piso da sala. À tarde ele troca de janela. No inverno, a cena parece a mais segura do mundo: apartamento alto, janela trancada, nenhuma rua, nenhum perigo.
O tutor só repara na orelha quando faz carinho. A ponta, branca e fina, ficou rosada, depois áspera, e um dia aparece uma casquinha escura na borda. Ela sai no banho de língua, deixa uma gota de sangue e volta a se formar dias depois, exatamente no mesmo ponto.
A primeira explicação costuma ser briga. Outro gato da casa, uma unhada na brincadeira, um arranhão no box do banheiro. A segunda é alergia ou picada de mosquito. Quase ninguém pensa em sol, porque o gato nunca põe o pé fora de casa e o vidro está fechado.
O vidro comum da janela segura bem o raio UVB (a faixa curta do ultravioleta, a que mais queima a pele de quem vai à praia). Ele deixa passar boa parte do raio UVA, a faixa mais longa, que atravessa o vidro e chega fundo na pele. Daí o motorista que dirige muito tem mais rugas no lado do rosto que fica virado para a janela do carro.
No gato, o alvo é a pele sem pigmento. Pelo branco não tem melanina (o pigmento que dá cor ao pelo e à pele e funciona como filtro contra o sol), e a ponta da orelha tem pelo curto e ralo, quase pele nua. O focinho rosado e a borda das pálpebras claras seguem pelo mesmo caminho.
Uma tarde de janela não faz estrago. O que pesa é a soma: horas por dia, todos os dias, durante anos, sempre no mesmo lado da cabeça virado para o vidro. A lesão que vira crosta, sangra e volta é o sinal de que a pele já não fecha sozinha. Foi assim com uma gata de Florianópolis que tinha a janela mais bonita do prédio.
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I O Que Ele Esconde
A gata Neve e a orelha que não cicatrizava
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Neve Albuquerque Ramos, gata sem raça definida de oito anos, toda branca e de olhos azuis, morava num apartamento de décimo andar em Florianópolis. A tutora, Helena Albuquerque Ramos, tinha mandado instalar uma rede de proteção nas janelas e deixava o vidro da sala fechado quase o ano inteiro, por causa do vento.
Neve passava as manhãs no parapeito voltado para o norte, onde o sol bate mais tempo no hemisfério sul. Helena via a gata ali todo dia e achava a cena uma prova de que a gata vivia bem: quente, segura, distraída com os passarinhos do prédio vizinho.
A ponta da orelha esquerda, a que ficava encostada no vidro, começou a descascar num verão. Helena achou que fosse sujeira, depois picada, e passou uma pomada cicatrizante que tinha em casa. A casquinha caía, a pele ficava vermelha e brilhante, e duas semanas depois a crosta estava de volta, um pouco maior.
No segundo verão, a borda da orelha esquerda tinha ficado mais grossa e levemente enrolada. Quando Neve coçava a cabeça com a pata, saía sangue no lençol. A orelha direita, virada para a sala, tinha só um leve rosado na ponta.
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A orelha que adoece primeiro é a que fica virada para o vidro, e é a ela que se olha.
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Helena levou a gata ao veterinário Rafael Couto Menezes, que começou pela pergunta que muda o caso: onde a gata passa o dia. Ao ouvir janela norte, vidro fechado, várias horas, ele pediu para ver as duas orelhas lado a lado e mostrou a diferença de espessura entre elas.
Rafael explicou o nome do quadro: dermatite solar, a inflamação da pele provocada por sol repetido. Na fase inicial, a pele avermelha e descama. Com os anos, ela engrossa, forma crosta e passa a sangrar com qualquer atrito. Essa fase, chamada de lesão actínica (dano causado pela luz), pode virar câncer de pele se a exposição continuar.
Para saber em que ponto Neve estava, ele retirou um fragmento pequeno da borda, com anestesia local, e mandou para biópsia (o exame do tecido no microscópio). O laudo veio em dez dias: lesão actínica, ainda sem tumor. A orelha tinha volta, desde que o sol deixasse de bater nela.
O tratamento foi mais de rotina que de remédio. Helena colou uma película de proteção ultravioleta no vidro da janela norte e passou a fechar a cortina nas horas de sol mais forte. Rafael receitou uma pomada para a inflamação e marcou retorno a cada três meses. No verão seguinte, a crosta não voltou.
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II Painel da Caixa
O que o laudo procura na borda da orelha
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A dermatite solar é uma escada, e o veterinário quer descobrir em que degrau o gato está. O degrau de baixo é a vermelhidão que vai e volta. O do meio é a pele grossa, com crosta. O de cima é o carcinoma de células escamosas, o câncer de pele mais comum na orelha e no focinho de gatos brancos.
O Manual Merck de Veterinária, referência usada nas clínicas, descreve o carcinoma de células escamosas como o tumor que nasce justamente nas áreas de pele clara e pouco pelo expostas ao sol: ponta da orelha, focinho e pálpebras. O manual registra que gatos brancos, ou com essas partes brancas, são os mais atingidos.
O tumor costuma crescer devagar e começa parecido com uma ferida comum. Daí tanta família trata por meses com pomada de casa. A pista que separa os dois é a teimosia: ferida de briga fecha em uma ou duas semanas e não volta, e a lesão de sol volta sempre ao mesmo ponto.
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Ferida que sangra, fecha e reabre no mesmo lugar já passou da fase de esperar para ver.
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A biópsia decide o caminho. Se o laudo mostra só lesão actínica, o plano é tirar o sol e acompanhar. Se mostra tumor no começo, ainda superficial, há tratamentos locais: congelamento com nitrogênio líquido (a crioterapia), aplicação de luz com um medicamento que só reage onde há tumor (a terapia fotodinâmica) ou radioterapia de superfície.
Se o tumor já entrou na cartilagem, a saída mais comum é a pinectomia, a retirada cirúrgica da parte externa da orelha. A palavra assusta, mas o gato continua ouvindo, porque o ouvido fica dentro da cabeça. A orelha ganha um contorno arredondado, e a maioria dos gatos volta a comer e brincar em poucos dias.
O carcinoma de orelha se espalha pouco para outros órgãos quando é tirado com margem, a faixa de pele sadia retirada em volta do tumor. O problema é o tempo. Na ponta da orelha há pouca pele para cortar; no focinho e na pálpebra, menos ainda. Cada verão a mais de crosta tira opção do veterinário.
Gato colorido também pode ter o problema, se tiver as orelhas ou o nariz brancos. Gato de pelo malhado de branco, o frajola de focinho claro, o siamês de orelha rosada na ponta: a regra é a cor da pele, não a do resto do corpo.
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