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No retorno, Paulo colheu sangue e urina. A glicose de Bento estava alta, bem acima da faixa normal para gatos. A urina, colhida direto da bexiga, tinha açúcar.
Havia, porém, uma armadilha conhecida no gato. A hiperglicemia de estresse (açúcar que sobe no sangue só por causa do medo) pode levar a glicose de um gato saudável a valores parecidos com os de um diabético, durante a consulta. Um único número de glicose alta, num gato que chegou à clínica tremendo, não basta.
Paulo pediu então um terceiro exame, a frutosamina (proteína do sangue que mostra a média do açúcar nas duas ou três semanas anteriores). O estresse de uma manhã não muda esse valor. A frutosamina de Bento veio alta também.
As diretrizes de manejo do diabetes em cães e gatos publicadas em 2018 pela Associação Americana de Hospitais Veterinários, no Journal of the American Animal Hospital Association, pedem exatamente esse conjunto para fechar o diagnóstico no gato: sinais clínicos compatíveis, glicose alta persistente e açúcar na urina, com a frutosamina ajudando a separar o diabetes do susto.
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Glicose alta mais frutosamina alta mais o caderno de casa: três provas apontando para o mesmo lado.
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O tratamento começou na mesma semana. Paulo receitou insulina aplicada por injeção sob a pele, duas vezes por dia, logo depois das refeições. Trocou a ração seca por alimento úmido com pouco carboidrato e muita proteína.
O consenso da Sociedade Internacional de Medicina Felina de 2015 descreve um desfecho possível, que Paulo apresentou a Renata com cautela: a remissão (fase em que o gato volta a controlar o açúcar sozinho e deixa de precisar de insulina). A chance cresce quando o tratamento começa cedo. Paulo foi claro: não há como saber, no começo, quais gatos chegam lá, e Bento podia precisar de insulina pelo resto da vida.
Antes de ir embora, Renata recebeu a lista dos sinais que pedem retorno imediato:
1. Gato que para de comer por mais de um dia, mesmo depois de começar a insulina.
2. Vômito repetido, cansaço forte ou hálito com cheiro adocicado, sinais de cetoacidose (complicação grave em que o corpo queima gordura demais e o sangue fica ácido).
3. Tremor, andar cambaleante ou gato muito mole depois da injeção, sinal de açúcar baixo demais.
4. Gato que passa a apoiar o calcanhar inteiro no chão ao andar com as patas traseiras, efeito do açúcar alto nos nervos da perna.
Três semanas depois, o caderno da lavanderia mostrou a primeira melhora. A fonte voltou a pedir água a cada dois dias. Os torrões da manhã diminuíram de tamanho. Bento deixou de miar às seis da manhã e ganhou cem gramas.
A remissão de Bento segue em aberto, e o próximo exame de frutosamina dirá se a dose cai. O caderno continua na lavanderia, com uma coluna nova: a hora de cada injeção.
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Pese a ração e conte a areia por uma semana: o gato que come mais e emagrece chega ao veterinário com a prova na mão do tutor.
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“Quanto o seu gato comeu, bebeu e molhou de areia ontem, em números e não em impressão?”
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