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Castração aos 4 meses

O Cat Group britânico recomenda castrar aos quatro meses, antes do primeiro cio que chega enquanto o tutor espera os seis.

Filhote de gata tricolor na mesa de consulta do veterinário.

Filhote na consulta dos quatro meses

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O calendário de vacinas de um filhote de gato costuma terminar com uma anotação a lápis na última página: castração aos seis meses. A data passa de tutor para tutor, aparece em cartaz de pet shop e em conversa de sala de espera, e quase ninguém pergunta de onde ela veio.

A biologia da gata não consulta esse calendário. A puberdade chega quando o corpo atinge peso e maturidade suficientes, e a luz do dia pesa na conta: a gata é poliéstrica sazonal (entra em cio várias vezes seguidas na estação de dias longos). Uma fêmea nascida no fim do inverno pode chegar aos quatro meses em plena primavera, com o organismo pronto para o primeiro cio.

O cio da gata não tem sangramento visível. O tutor ouve miados longos de madrugada, vê a gata rolar no chão, esfregar o rosto nos móveis e erguer o quadril quando recebe carinho no dorso. Muita gente lê o comportamento como dengo de filhote ou cólica.

A gata também tem ovulação induzida, o que quer dizer que o óvulo só se solta com o cruzamento. Basta uma escapada pela janela ou um macho da vizinhança no quintal para a gestação começar, e ela dura cerca de nove semanas. Um filhote de quatro meses pode virar mãe antes de completar seis, com o próprio corpo ainda em fase de crescimento.

No Reino Unido, veterinários e entidades de proteção animal revisaram a data dos seis meses no começo dos anos 2000. O Cat Group, coalizão britânica de organizações de bem-estar felino e associações veterinárias, publicou em 2006 uma declaração oficial recomendando castrar filhotes aos quatro meses, antes da puberdade.

O relato que abre esta edição acompanha uma gata de Porto Alegre que ninguém imaginava pronta para cruzar, e o que a clínica fez quando o ultrassom mostrou três filhotes.

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I  O Que Ele Esconde

Pipoca, o telhado da garagem e a vacina que virou ultrassom

Pipoca Lemos Vieira, gata tricolor sem raça definida, adotada com dois meses numa feira de adoção de Porto Alegre, entrou em cio em setembro, aos quatro meses e uma semana. A tutora, Camila Lemos Vieira, tinha a castração marcada para novembro, quando a gata completaria seis meses.

Camila estranhou a gata numa noite de domingo. Pipoca miava alto em frente à porta da área de serviço, rolava no piso frio e levantava o quadril a cada carinho nas costas. Camila achou que fosse dor de barriga e ofereceu ração úmida para acalmar.

Três dias depois, a gata sumiu por uma tarde. A janela da área de serviço, sem tela, dava para o telhado da garagem do prédio vizinho, onde um gato macho não castrado circulava havia semanas. Pipoca voltou à noite, calma, e o miado parou.

Duas semanas depois, Camila levou a gata para a última dose da vacina. O veterinário, Rodrigo Saraiva Nunes, apalpou o abdômen e pediu ultrassom. O exame mostrou três filhotes em formação.

Rodrigo explicou as opções. A castração com gestação em curso é possível, e parte das clínicas faz o procedimento quando a tutora decide não levar a ninhada adiante. Camila decidiu manter a gestação e se comprometeu a encontrar lar para cada filhote.

A gestação correu sem complicação. Pipoca teve os três filhotes em novembro, justo no mês em que estaria sendo castrada, dentro de uma caixa de papelão forrada no quarto de Camila. Ela ainda não tinha seis meses e pesava pouco mais de dois quilos e meio.

Os filhotes mamaram por oito semanas. Camila entregou dois para colegas de trabalho, com termo de adoção e castração combinada aos quatro meses, e ficou com o terceiro. Pipoca foi castrada depois do desmame, aos oito meses, e a janela da área de serviço ganhou tela.

Os dois filhotes adotados foram castrados aos quatro meses, na clínica de Rodrigo, e voltaram para casa na tarde da própria cirurgia. O terceiro, um macho laranja que Camila batizou de Farofa, seguiu a mesma agenda.

A gata não precisa chegar aos seis meses para engravidar: o primeiro cio pode vir aos quatro, e uma tarde fora de casa basta.

Rodrigo contou a Camila que a data que ela seguia já tinha sido revista por entidades britânicas quase vinte anos antes, e que a recomendação nova nasceu de ninhadas como a de Pipoca.

 
 

II  Painel da Caixa

A declaração britânica que antecipou a cirurgia

O Cat Group reúne entidades como a Cats Protection, a International Cat Care e a British Small Animal Veterinary Association (BSAVA, associação britânica de veterinários de pequenos animais). As integrantes assinam juntas documentos curtos sobre temas em que a prática das clínicas ficou para trás.

Em 2006, o grupo publicou a declaração sobre o momento da castração, com a recomendação de castrar gatos de estimação aos quatro meses de idade. O texto admite a cirurgia em filhotes ainda mais novos em abrigos, onde o animal só sai para adoção já castrado.

A lógica do documento parte do calendário da puberdade. Gatas podem entrar no primeiro cio a partir dos quatro meses, e a castração marcada para os seis chega tarde para uma parte delas. O intervalo entre as duas datas basta para uma gestação começar.

A data dos seis meses vem da cirurgia de décadas atrás. Anestésicos antigos exigiam animal maior, e havia receio de que a castração precoce atrapalhasse o crescimento, a bexiga e o comportamento. Os protocolos de anestesia mudaram, e a dúvida passou a ser testada em estudo.

Um dos trabalhos mais citados foi conduzido pela veterinária Lisa Howe, da Universidade Texas A&M, e publicado em 2000 no Journal of the American Veterinary Medical Association. A equipe acompanhou por cerca de três anos gatos castrados antes das 24 semanas de vida e gatos castrados depois, e não encontrou aumento de problemas graves de saúde no grupo precoce.

Filhote de quatro meses, pelo relato das clínicas que seguem a recomendação, costuma voltar a comer poucas horas depois da cirurgia e brincar na manhã seguinte. O corte é pequeno e a gordura abdominal ainda é pouca, o que facilita o procedimento na fêmea.

A recomendação britânica troca a pergunta "a gata já tem idade?" por outra mais útil: o cio vai chegar antes da cirurgia?

A castração cedo também muda a saúde da fêmea adulta. Gata castrada antes do primeiro cio fica livre da piometra (infecção grave do útero) e tem risco bem menor de tumor de mama, câncer frequente e agressivo em gatas inteiras.

No macho, a cirurgia aos quatro meses chega antes da marcação de território com urina de cheiro forte e antes das brigas por fêmea no telhado, que espalham a FIV (vírus da imunodeficiência felina) pela mordida.

O Brasil não tem declaração equivalente de entidade nacional com a mesma força, e muitas clínicas seguem os seis meses por costume. O tutor pode levar a recomendação do Cat Group para a consulta e perguntar se a clínica opera filhotes de quatro meses.

 

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III  Mapa do Território

Agenda da castração, da vacina ao pós-operatório

Primeiro passo: na consulta da segunda dose da vacina, pergunte ao veterinário se a clínica faz castração aos quatro meses e qual peso mínimo o anestesista exige para operar.

Segundo passo: marque a data da cirurgia assim que o filhote completar o esquema de vacinas, e anote na carteira de vacinação. A castração entra no calendário junto das doses, e não meses depois delas.

Terceiro passo: até a cirurgia, mantenha a fêmea sem acesso à rua. Tela em todas as janelas, porta da área de serviço fechada e atenção redobrada com visitas e entregas. Um macho não castrado percebe pelo cheiro a gata no cio a quarteirões de distância.

Quarto passo: aprenda os sinais do cio: miado longo e insistente, rolar no chão, esfregar o rosto nos móveis, quadril erguido ao carinho nas costas e tentativa de fuga. Com esses sinais, ligue para a clínica e antecipe a data.

Quinto passo: no pós-operatório, deixe o filhote num cômodo tranquilo, com água, caixa de areia e cama, e use roupa cirúrgica ou colar se ele lamber os pontos. Siga o jejum e a dieta que o veterinário indicar.

Se a casa tem filhotes irmãos de sexos diferentes, castre todos dentro da mesma janela de poucas semanas. Irmãos cruzam entre si sem hesitar, e a primeira gestação da casa pode vir de dentro dela.

Em gata que já entrou no cio, a cirurgia continua possível. Parte dos veterinários prefere operar fora do cio, porque o útero fica mais irrigado e o sangramento aumenta; a escolha da data fica com a clínica.

Castração não engorda sozinha: o gasto de energia cai depois da cirurgia, e o ajuste da porção de ração evita o ganho de peso. Peça ao veterinário a quantidade diária certa para a fase de crescimento.

Muitas prefeituras e organizações de proteção animal oferecem castração gratuita ou a preço reduzido, com fila de espera. Vale inscrever o filhote assim que ele chega em casa, para a vaga sair perto dos quatro meses.

Castração marcada junto da última vacina, janelas com tela e sinais do cio anotados na porta da geladeira.

"Com quantos meses o seu gato foi castrado, e quem sugeriu a data?"

 
 
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