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Cinquenta e um dias com a etiqueta ainda na base.
Amendoim, gato macho castrado, quatro anos, cinco quilos e duzentos, sem raça definida, morador de uma casa de dois quartos em Londrina com uma família de três pessoas, ignorou por cinquenta e um dias um arranhador novo e continuou desfiando o braço do sofá da sala. O tutor registrou as datas no aplicativo de notas do celular porque pretendia devolver o produto à loja.
O dano no sofá tinha sete meses de história. Os fios abriram primeiro no braço direito, na altura de quarenta centímetros do chão, sempre no mesmo trecho de tecido, e a família passou a cobrir a área com uma manta xadrez que o gato empurrava para o lado antes de arranhar.
O arranhador chegou em uma quinta-feira. Poste de sisal de sessenta centímetros de altura, base quadrada de madeira leve, comprado pela internet, montado na sala e transferido para a lavanderia no dia seguinte porque atrapalhava a passagem entre a mesa e a estante.
O produto ficou intacto. O tutor conferia o poste toda manhã, procurava fibra solta na base, passava a mão no sisal atrás de risco e não encontrou nada durante sete semanas seguidas de observação.
A família tentou três correções sem mover o poste. Borrifou cheiro cítrico no braço do sofá durante duas semanas, colou fita dupla face no tecido por dez dias e passou a levar o gato no colo até a lavanderia toda vez que o flagrava arranhando o móvel.
O gato aceitou o colo e voltou ao sofá. Ele ficava parado ao lado do poste, olhava para a porta da lavanderia, descia da base sem tocar no sisal e refazia o caminho até a sala, onde retomava a marcação no mesmo trecho de tecido.
A observação útil apareceu num sábado de manhã. O tutor acordou às seis e quarenta, viu o gato levantar da manta da poltrona, esticar o corpo com as patas dianteiras à frente e cravar as garras no braço do sofá dentro de oito segundos, sem dar nenhum passo antes.
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A trena respondeu o que duas semanas de borrifador não responderam.
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Ele mediu as distâncias da casa com uma trena. Do braço do sofá até a manta da poltrona havia oitenta centímetros, e do braço do sofá até o poste da lavanderia havia sete metros e quarenta, com uma porta e um degrau no caminho.
Ele mediu também o próprio gato. Com o animal esticado contra o batente da porta, das patas dianteiras até a base do rabo deu setenta e três centímetros, treze a mais que a altura total do poste comprado.
A mudança durou uma tarde. O tutor trouxe o poste de volta para a sala e prendeu a base ao chão com duas presilhas plásticas, a sessenta centímetros do braço do sofá, e comprou um segundo poste de oitenta e cinco centímetros para o corredor do quarto, na saída da cama.
O uso começou em dois dias. Amendoim arranhou o poste da sala na manhã de domingo logo depois de levantar da manta, repetiu à noite ao voltar da cozinha, e na terça-feira a base já tinha fibra de sisal solta no chão em volta.
O sofá saiu da rota de marcação em três semanas. A família retirou a manta xadrez no décimo dia, o braço do móvel não ganhou risco novo até o fim do mês, e o poste da lavanderia foi descartado sem substituição porque nenhum morador passava por ali.
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