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A caixa de costura ficou aberta em cima da cama. Um carretel de linha branca rolou para o tapete, e o gato fez o que gato faz com qualquer fio que se mexe: caçou, mordeu, mastigou. Ninguém viu. À noite a linha já não estava no chão, e o carretel tinha bem menos volta do que de manhã.
A língua do gato explica o resto. Ela é coberta de papilas (pequenas pontas duras de queratina, o mesmo material da unha) viradas para trás, na direção da garganta. Servem para pentear o pelo e raspar carne do osso. Com um fio, elas funcionam como os dentes de uma catraca: a linha só anda para dentro. O gato não consegue cuspir o que começou a engolir.
No dia seguinte vem o primeiro vômito. Depois outro, e mais um, às vezes só com espuma. O gato recusa a comida, se esconde embaixo da cama, baba um pouco. Em alguns casos o tutor abre a boca do animal e vê uma ponta de linha saindo da garganta, ou um laço fino enrolado na base da língua.
O instinto de quem ama o gato é segurar a ponta e puxar. Parece o gesto mais simples do mundo: o fio está ali, visível, e bastaria tirá-lo. Esse é o gesto que transforma um caso de cirurgia em um caso de urgência.
O fio quase sempre está ancorado em algum ponto. Pode ser um laço em volta da língua, pode ser um bolo de linha parado na saída do estômago. O resto segue pelo intestino, que tenta empurrar o fio para frente com as ondas da digestão. Como a ponta não sai do lugar, o intestino vai subindo pelo fio e se franzindo sobre ele, igual ao tecido de uma cortina franzida no varão.
A linha esticada passa a funcionar como uma serra. A cada contração, ela corta um pouco a parede interna do intestino, do lado em que está apoiada. Puxar a ponta pela boca acelera esse corte. Foi assim com um gato de Curitiba que achou o carretel da avó.
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I O Que Ele Esconde
Bartolomeu e o carretel embaixo da cama
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Bartolomeu Ferraz Lacerda, gato rajado de três anos, castrado e sem raça definida, morava com a tutora Marina Ferraz Lacerda num sobrado em Curitiba. A avó de Marina passava as tardes costurando na sala, e o cesto de linhas ficava na prateleira baixa da estante.
Num domingo, o cesto caiu. Marina recolheu os carretéis do chão sem contar quantos eram, e o de linha branca de pesponto (a linha grossa e resistente da costura de bainha) ficou esquecido embaixo do sofá. Bartolomeu passou a tarde ali, entretido, e ninguém estranhou.
Na segunda de manhã ele vomitou a ração. Marina pensou em bola de pelo, porque o gato tinha o hábito de se lamber muito. À tarde veio um segundo vômito, de líquido amarelado, e à noite um terceiro. Bartolomeu, que pedia comida às cinco da manhã, ficou deitado no tapete do banheiro, frio e quieto.
Na terça, ao fazer carinho no queixo dele, Marina viu um fio branco brilhando entre os dentes. Pegou a ponta com os dedos e puxou de leve. A linha não veio. Bartolomeu se encolheu e soltou um miado baixo. Ela parou ali, e foi a decisão que salvou o gato.
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Fio que não sai com um toque leve está preso lá dentro, e cada puxão a mais aperta o laço.
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Marina cortou a ponta rente aos lábios com uma tesoura, para que o gato não engolisse mais linha, e levou Bartolomeu à clínica da veterinária Beatriz Moura Tavares. O primeiro gesto de Beatriz foi abrir a boca do gato com uma luz forte e levantar a língua com uma espátula.
Embaixo dela, na base, a linha dava uma volta inteira e descia pela garganta. O laço já tinha aberto um corte fundo na pele do frênulo (a dobra fina que prende a língua ao assoalho da boca). Beatriz pediu radiografia do abdômen e viu o desenho que confirma o caso: as alças do intestino amontoadas, franzidas, com bolhas pequenas de gás em formato de vírgula.
Bartolomeu foi para a cirurgia na mesma noite. Beatriz cortou o laço da língua, abriu o estômago e fez duas pequenas aberturas no intestino para retirar a linha em pedaços, sem arrastar o fio pela parede. A linha não tinha furado o intestino. O gato ficou três dias internado e voltou a comer no quarto dia. O cesto de linhas ganhou tampa.
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II Painel da Caixa
O que a radiografia mostra quando o fio some
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O nome técnico do quadro é corpo estranho linear: qualquer objeto comprido e fino que o gato engole, como linha de costura, fio dental, barbante de assado, fita de presente, elástico de cabelo ou a pena com cordão do brinquedo de vara. Fio dental usado ainda tem cheiro de comida, o que o torna mais atraente que a linha.
O problema não é o tamanho do objeto. Um botão engolido costuma passar inteiro e sair nas fezes. O fio só vira emergência quando uma das pontas fica presa, e o intestino passa a trabalhar contra ela. A ancoragem mais comum é na base da língua; a segunda, no piloro (a válvula que separa o estômago do intestino).
O Manual Merck de Veterinária, referência usada nas clínicas, descreve o corpo estranho linear como mais frequente em gatos que em cães e orienta o exame embaixo da língua em todo gato com vômito sem causa clara. O manual registra que o fio preso costuma escapar do exame rápido, porque o gato acordado não deixa levantar a língua.
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Gato que vomita várias vezes e para de comer tem a boca examinada embaixo da língua, mesmo sem fio à vista.
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Na clínica, o exame da boca muitas vezes pede sedação leve. Sem ela, o veterinário vê os dentes e o céu da boca, mas não o assoalho. É ali que o laço se esconde, às vezes coberto por um inchaço vermelho que parece uma afta.
A radiografia nem sempre mostra a linha, porque o tecido e o fio de náilon não aparecem na chapa. O que aparece é o efeito: o intestino em sanfona, as alças juntas num só canto da barriga e o gás formando bolhas curtas e curvas. O ultrassom ajuda a ver a parede franzida e o líquido livre, quando há.
A pior fase começa quando o fio corta a parede de lado a lado. O conteúdo do intestino vaza para a barriga e provoca peritonite (a inflamação da membrana que forra o abdômen por dentro). O gato fica com febre ou com a temperatura baixa demais, a barriga dura e dolorida, e a cirurgia passa a ser mais longa, com lavagem da cavidade e internação maior.
Daí a pressa. O fio que ainda não perfurou sai numa cirurgia de rotina para um cirurgião geral, com alta em poucos dias. O mesmo fio, depois de dois ou três dias de vômito, pode exigir a retirada de um trecho do intestino e a costura das pontas sadias, a chamada enterectomia. O gato que chega cedo é o que tem menos intestino cortado.
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