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O frango da panela que deixou a gengiva branca
Cebola e alho, crus, cozidos ou em pó, rompem o glóbulo vermelho do gato, e chegam escondidos no caldo e na papinha.
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Frango da panela, com cebola no molho
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Domingo, duas da tarde, a panela de frango desfiado esfria no fogão. Alguém separa um punhado para o gato, sem pele e sem osso, e coloca no pote ao lado da ração. O gato come tudo em poucos minutos e ainda lambe o prato.
O frango tinha sido refogado com cebola picada, dois dentes de alho e um cubo de caldo de carne. Nenhum dos três aparece no pedaço desfiado. A cebola derreteu no molho, o alho sumiu no óleo, e o caldo virou só cor e cheiro.
Para a família, foi um agrado. Para o sangue do gato, foi uma dose de compostos de enxofre que o corpo dele não consegue neutralizar. Eles atacam a hemoglobina, a proteína que carrega oxigênio dentro do glóbulo vermelho, e deformam a célula por dentro.
Nada acontece na hora. O gato dorme a tarde, janta normalmente e acorda igual na segunda-feira. Os sinais costumam aparecer entre um e cinco dias depois, quando ninguém mais lembra do almoço de domingo.
Cozinhar não resolve. Fritar, assar ou desidratar a cebola não destrói os compostos, e o pó concentra o problema, porque tira a água e deixa o enxofre. O alho, grama por grama, pesa mais que a cebola.
O risco quase nunca vem de uma cebola inteira oferecida ao gato. Vem escondido: no caldo do cozido, na sopa de legumes, na papinha infantil de carne que muita gente dá a gato doente porque ele aceita, no patê caseiro, no resto de pizza, no tempero pronto que traz cebola e alho no rótulo.
A dose também engana. Uma refeição farta faz estrago, mas porções pequenas repetidas por vários dias somam dano, porque o corpo leva semanas para repor os glóbulos perdidos.
A seção seguinte acompanha uma gata de seis anos que ganhou frango da panela três domingos seguidos e chegou à clínica com a gengiva branca.
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I O Que Ele Esconde
Mel, três almoços de domingo e a urina cor de chá
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Mel Batista Quintela, gata sem raça definida de seis anos e quatro quilos, moradora de uma casa em Londrina, chegou à clínica numa quinta-feira deitada no fundo da caixa de transporte. O tutor, Rafael Quintela, contou que ela dormia mais que o normal desde terça, recusava o sachê e respirava rápido, com a barriga subindo e descendo depressa.
A veterinária, Juliana Moreira Paes, levantou o lábio de Mel e encontrou a gengiva pálida, quase branca, onde deveria haver rosa. O coração batia acelerado no estetoscópio, e a pele do pescoço, esticada contra a luz, tinha um tom amarelado.
Na caixa de areia daquela manhã, Rafael tinha notado urina escura, cor de chá mate. A veterinária explicou que a cor vinha de hemoglobina solta, liberada por glóbulos vermelhos rompidos e eliminada pelos rins.
O hemograma confirmou a suspeita. O hematócrito, a porcentagem do sangue ocupada por glóbulos vermelhos, estava em 17%, quando a faixa de referência do laboratório para gato saudável ia de 30% a 45%. Mel tinha perdido perto de metade das células que levam oxigênio.
No microscópio, a lâmina de sangue mostrou corpúsculos de Heinz (bolinhas de hemoglobina estragada grudadas na parede do glóbulo) em grande parte das células. Esse achado aponta para dano oxidativo, e a veterinária passou a perguntar pela comida.
Rafael respondeu que Mel comia só ração. Depois lembrou do frango. Nos três domingos anteriores, a gata tinha ganhado um pratinho do frango desfiado do almoço, refogado com cebola, alho e caldo de carne em cubo, porque pedia na cozinha.
Mel ficou internada três dias. Recebeu soro na veia, oxigênio numa caixa fechada e uma transfusão de sangue de um gato doador, feita depois da tipagem sanguínea, o exame que confere o grupo do sangue. Gato tem grupos A, B e AB, e sangue do grupo errado provoca reação grave já na primeira bolsa.
No quarto dia, o hematócrito subiu para 24%, a urina clareou e Mel comeu sozinha. Ela voltou para casa com repouso e ração úmida, sem nenhum petisco de mesa.
Na revisão, três semanas depois, o hematócrito estava em 32% e a lâmina não mostrava mais corpúsculos de Heinz. A medula óssea tinha reposto as células perdidas. Rafael contou que Mel voltou a subir no armário da lavanderia, salto que ela tinha abandonado.
O caso mostra por que a conta demorou a fechar. Nenhum dos três almoços derrubou Mel sozinho. O dano de cada domingo se somou ao anterior antes que a medula conseguisse repor, e os sinais só apareceram quando a perda passou do que o corpo dela compensava.
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II Painel da Caixa
Enxofre na hemoglobina e um baço que descarta o estrago
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A cebola e o alho carregam compostos de enxofre, os tiossulfatos e os dissulfetos, que no gato funcionam como oxidantes (substâncias que roubam elétrons de outras moléculas). Dentro do glóbulo vermelho, eles alteram a hemoglobina e a fazem se aglomerar em corpúsculos de Heinz.
A célula marcada perde a flexibilidade que precisa para passar pelos vasos finos. O baço reconhece as hemácias deformadas e as retira de circulação, e parte delas se rompe dentro do próprio vaso. A consequência é anemia hemolítica, a falta de glóbulo vermelho por destruição.
O gato é mais sensível que o cão e que a gente por dois motivos. A hemoglobina felina tem mais pontos químicos vulneráveis ao ataque oxidante, e o baço do gato filtra pior as células danificadas, que assim continuam circulando com defeito.
Parte da hemoglobina atingida vira metemoglobina, uma forma que não carrega oxigênio. Quando ela aparece em quantidade, a gengiva fica acinzentada ou marrom em vez de pálida, e o gato respira rápido mesmo parado.
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Gengiva pálida, acinzentada ou amarelada, urina escura, cansaço ou respiração rápida entre um e cinco dias depois de comida temperada pede clínica no mesmo dia. Se o gato acabou de comer cebola ou alho, ligue para o veterinário sem esperar sinal nenhum.
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A papinha infantil entrou na lista por um experimento. Jennifer Robertson, Mary Christopher e Quinton Rogers, da Universidade da Califórnia em Davis, publicaram em 1998 no Journal of the American Veterinary Medical Association um estudo com gatos alimentados com papinha que continha cebola em pó. Os animais formaram corpúsculos de Heinz, e a quantidade subia conforme a dose de pó.
A família inteira da cebola faz o mesmo estrago: alho, cebolinha, alho-poró, chalota (a cebola pequena de casca avermelhada) e o cebolinho de ervas finas. Todos valem cru, cozido, frito, desidratado ou em pó.
Não existe antídoto. Quando o veterinário é chamado nas primeiras horas, ele pode provocar o vômito com remédio próprio para gato e dar carvão ativado, que prende parte dos compostos no intestino. Depois, o tratamento é suporte: soro, oxigênio e transfusão quando o hematócrito cai demais.
Se a exposição para, a medula repõe os glóbulos em duas a três semanas, como aconteceu com Mel. O perigo está em continuar dando o mesmo petisco, porque cada porção nova encontra um sangue que ainda não se refez da anterior.
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