|
|
|
{{saudacao | Bom te ver por aqui.}} {{saudacao_nome | }}
|
|
| {{subiu_orn | }} |
{{subiu_num | }} |
{{subiu_orn | }} |
{{subiu_caps | }}
{{subiu_linha | }}
|
|
O gato que caiu do 6º andar e levantou andando
O Animal Medical Center de Nova York achou, em 1987, trauma no tórax em 90% dos gatos caídos de prédios, até nos que andavam.
|
Janela aberta, sem tela, no sexto andar
|
| ▼ |
| |
|
Há um apelido que os veterinários de pronto atendimento usam para um tipo de paciente que chega quase sempre na primavera e no verão, quando as janelas ficam abertas: gato paraquedista. O nome técnico é síndrome do gato paraquedista, ou high-rise syndrome (síndrome dos prédios altos), e descreve o conjunto de lesões que aparece no gato que cai de uma janela, sacada ou varanda.
O gato despenca porque confia demais no próprio equilíbrio. Um inseto passa, um pombo pousa no parapeito, e ele salta atrás sem calcular que o parapeito acaba. A curiosidade vence a cautela em frações de segundo, e o salto acontece antes de qualquer freio. Veterinários de clínicas urbanas ouvem sempre a mesma frase do tutor: ele vivia na janela e nunca tinha caído.
A queda assusta menos do que deveria porque o gato costuma levantar. Ele gira no ar, cai sobre as quatro patas, anda até um canto, se esconde embaixo de um carro. Horas depois, volta a comer. O tutor que desce correndo e encontra o bicho andando tende a respirar aliviado e a marcar a consulta para a semana seguinte. Há quem chegue a duvidar da queda, porque o gato parece o mesmo de sempre.
O problema mora no peito. O impacto das patas no chão empurra o tórax contra o solo, e o pulmão pode rasgar por dentro sem nenhuma ferida à vista. O ar escapa para o espaço em volta do pulmão e aperta o órgão aos poucos. Nas primeiras horas, o gato ainda respira; no fim da tarde, respira pela boca.
Um estudo publicado em 1987 contou quantos gatos caídos de prédios de Nova York tinham lesão no tórax, e o número surpreendeu os próprios autores. Antes dele, porém, vale conhecer a gata que levantou do gramado de um prédio de Porto Alegre, caminhou até a porta e enganou todo mundo por algumas horas.
Continue lendo ↓
|
|
|
|
I O Que Ele Esconde
Frida, o gramado e a respiração pela boca
|
|
Frida Tavares Nunes, gata tigrada de dois anos, caiu da janela do sexto andar do apartamento de Paulo Tavares Nunes, em Porto Alegre, numa manhã de novembro. A janela da sala não tinha tela, e Frida passava as tardes deitada no parapeito, de olho nos pardais da árvore da frente.
Paulo ouviu o baque do vaso que ela derrubou ao pular e correu até a janela. Lá embaixo, no gramado do prédio, Frida já estava de pé. Quando ele chegou ao térreo, a gata tinha andado uns dez metros e se enfiado embaixo de um banco do jardim.
Ele a puxou com cuidado e procurou sangue, osso quebrado, pata torta. Não achou nada. Frida mancava de leve da pata dianteira direita e tinha um corte pequeno no queixo. Em casa, bebeu água e deitou na caixa de papelão onde costumava dormir.
Paulo mandou mensagem para a veterinária da gata, Helena Costa Ribeiro, contando que Frida tinha caído mas estava bem. A resposta veio em minutos: traga agora, mesmo andando, e observe se ela está respirando com a boca aberta.
No caminho da clínica, o sinal apareceu. Frida, deitada na caixa de transporte, abriu a boca e começou a arfar, com a barriga subindo e descendo rápido. Gato saudável respira pelo nariz; respirar pela boca, para um felino, é sinal de falta de ar.
Helena fez um exame de imagem do peito ainda na recepção. O raio X mostrou pneumotórax (ar vazando do pulmão para dentro do peito) dos dois lados e uma contusão pulmonar, um hematoma no tecido do pulmão. O corte no queixo escondia uma fratura na sínfise mandibular, a junção das duas metades da mandíbula.
A veterinária drenou o ar com uma agulha fina entre as costelas e pôs Frida no oxigênio. Duas horas depois, a gata respirava pelo nariz de novo. A mandíbula foi fixada com um fio de aço dias depois, quando o pulmão já permitia a anestesia.
|
O gato que anda depois da queda não prova que está bem: o ar que vaza do pulmão leva horas para apertar o peito.
|
Frida teve alta no quarto dia, comeu ração pastosa por três semanas e voltou a mastigar ração seca depois que o fio saiu. Paulo instalou tela de proteção em todas as janelas antes de trazê-la de volta para a sala, e a gata voltou ao parapeito, agora do lado de dentro da rede.
|
|
|
|
|
II Painel da Caixa
Os 132 gatos do Animal Medical Center
|
|
O levantamento que deu nome à síndrome saiu em 1987 no Journal of the American Veterinary Medical Association, assinado pelos veterinários Wayne Whitney e Cheryl Mehlhaff, do Animal Medical Center de Nova York. Eles analisaram 132 gatos atendidos no hospital depois de cair de prédios, ao longo de cinco meses de 1984.
A queda média, segundo os autores, foi de cinco andares e meio, e o gato que caiu mais alto despencou do 32º andar. Com tratamento, 90% dos 132 sobreviveram. O dado que mais pesa para o tutor é outro: Whitney e Mehlhaff registraram trauma torácico, lesão no peito, em 90% dos animais.
O pneumotórax e a contusão pulmonar apareceram entre as lesões de peito mais frequentes. Logo depois vinham o trauma no rosto, com dente quebrado e mandíbula partida no ponto em que o queixo bate no chão, e as fraturas de pata, sobretudo nas dianteiras.
Os autores notaram um desenho curioso. As lesões cresciam com a altura até o sétimo andar e, a partir dele, deixavam de aumentar. A explicação proposta por Whitney e Mehlhaff tem duas partes. A primeira é o reflexo de endireitamento, a torção de coluna que o gato faz no ar para virar as patas para baixo, que o filhote já domina a partir da sétima semana de vida.
A segunda parte é a velocidade. Depois de alguns andares, o gato para de acelerar, e os autores sugeriram que, sem a sensação de aceleração, ele relaxa e abre as patas como um paraquedas. O corpo estendido freia no ar e espalha o impacto pelo peito e pelo abdômen, e daí vem o apelido.
A hipótese tem um furo que os próprios veterinários apontam. O estudo só contou gatos que chegaram vivos ao hospital. Gatos que caíram de muito alto e não resistiram raramente eram levados à clínica, e ficaram fora da conta. O número de sobreviventes dos andares altos pode estar inflado por esse filtro, e ninguém mediu quantos ficaram de fora, porque os registros da época não guardavam o caso que nunca entrou pela porta.
Para o tutor, a lição prática do levantamento cabe numa frase: a ausência de ferida por fora não diz nada sobre o estado do peito por dentro, e só o exame de imagem responde.
|
Queda do segundo andar também machuca: o gato baixo demais não tem tempo de girar e cai de lado ou de peito.
|
O estudo de 1987 foi repetido em outras cidades com resultados parecidos. Uma equipe da Faculdade de Medicina Veterinária de Zagreb, liderada por Dražen Vnuk, publicou em 2004 no Journal of Feline Medicine and Surgery a análise de 119 gatos caídos de prédios da capital croata, e encontrou de novo o tórax entre as regiões mais atingidas.
|
| |
|