|
|
| {{subiu_orn | }} |
{{subiu_num | }} |
{{subiu_orn | }} |
{{subiu_caps | }}
{{subiu_linha | }}
|
|
O gato que derruba ração e continua comendo
Grão caindo da boca é pista de reabsorção dentária, um buraco que o próprio corpo abre no dente rente à gengiva.
|
Grãos de ração caídos ao lado do pote
|
| ▼ |
| |
|
Um gato cinza está agachado diante do pote às sete da manhã, mastigando com vontade. A cada bocada, um ou dois grãos de ração escapam pelo canto da boca e quicam no piso. Ele se abaixa, recolhe alguns com a língua, perde outros e continua comendo até esvaziar o pote.
Ninguém na casa estranha a cena. O prato ficou vazio, o gato pediu mais à tarde, e o peso segue igual na balança da clínica. Comer bem parece prova de boca saudável.
O gato mastiga de um jeito que engana. Ele engole a maior parte dos grãos quase inteiros, usa pouco os dentes de trás quando algo dói e troca o lado da mordida sem que ninguém perceba. A fome dele pesa mais que o incômodo, e o incômodo raramente aparece em forma de choro.
Os grãos no chão são uma das poucas pistas visíveis. Outras costumam vir juntas: a cabeça que inclina para um lado ao morder, o queixo que treme por um segundo, a baba discreta no pelo do peito, a preferência nova por sachê e a ração seca esquecida no pote.
Por trás desses sinais, com frequência, está uma lesão que o próprio corpo do gato produz. Células que normalmente remodelam osso passam a atacar o dente, rente à gengiva, e abrem uma cavidade que chega ao nervo. Não depende de açúcar, não nasce de bactéria como a cárie humana e não se evita com escova.
A gengiva costuma crescer por cima do buraco para tentar tapá-lo, e a lesão fica escondida sob um tecido vermelho que parece só inflamação. Parte do estrago corre dentro da raiz, onde nenhum olho alcança sem radiografia.
Quem convive com o gato vê a boca de frente, pelos dentes caninos e pelos incisivos. A lesão prefere os dentes do fundo, atrás do canino de baixo, justamente onde a família não costuma olhar.
A seção seguinte acompanha um gato de oito anos que comia tudo, derrubava grãos toda manhã e tinha três dentes furados.
Continue lendo ↓
|
|
|
|
I O Que Ele Esconde
Tobias, o pote da cozinha e três dentes furados
|
|
Tobias Rezende Farias, gato sem raça definida de oito anos e cinco quilos, morador de um apartamento em Joinville, chegou à consulta anual de vacina sem queixa nenhuma da família. A tutora, Helena Rezende Farias, mencionou só no fim, com a caixa de transporte já fechada, que ele andava derrubando ração no chão da cozinha.
A veterinária, Mariana Cardoso Vieira, pediu para ver a boca de novo. Com o lábio levantado, um dente de trás da mandíbula esquerda mostrava uma faixa de gengiva inchada e avermelhada subindo sobre o esmalte, na altura em que o dente encontra a gengiva.
Ela encostou a ponta de um cotonete naquele ponto. Tobias fechou a boca de estalo, o queixo tremeu por alguns segundos e ele recuou a cabeça, reação comum quando uma lesão dessas é tocada.
Helena lembrou então de outros detalhes. Havia meses que Tobias mastigava pelo lado direito, com a cabeça inclinada. Ele passara a preferir o sachê úmido, e a ração seca sobrava no fundo do pote até a noite.
O exame completo exige anestesia geral, porque gato acordado não deixa sondar dente por dente nem fica parado para radiografia dentro da boca. Tobias fez exames de sangue na mesma semana e voltou em jejum dez dias depois.
Com o gato anestesiado, a veterinária passou a sonda periodontal, um fio metálico fino com marcas de milímetro, em cada dente. Em três deles a ponta afundava num degrau rente à gengiva: dois pré-molares de baixo e um molar de cima.
As radiografias intraorais, feitas com um filme pequeno colocado dentro da boca, mostraram o resto. Num dos pré-molares, a raiz tinha perdido o contorno escuro que separa dente de osso e parecia se dissolver na mandíbula, sinal de que o corpo estava trocando dente por osso.
Os outros dois dentes tinham raízes ainda definidas e canal visível, com a cavidade aberta até a polpa, o tecido vivo com nervo e vaso no centro do dente. Esses dois foram extraídos inteiros, com raiz e tudo.
No pré-molar de raiz já substituída, a veterinária fez a amputação da coroa: retirou a parte visível, alisou o osso e fechou a gengiva com pontos, deixando no lugar o resto da raiz para o corpo terminar de absorver.
Tobias voltou para casa na mesma tarde com analgésico por cinco dias e sachê amassado por duas semanas. Na revisão, a gengiva estava fechada. Helena contou que, no terceiro dia, ele já mastigava pelos dois lados e o chão da cozinha amanheceu limpo.
A ficha deixa uma pergunta sem resposta, e a medicina veterinária também não tem a dela: a causa da lesão em Tobias. Nenhum estudo identificou até hoje o gatilho que faz as células atacarem o dente, e as hipóteses em teste (excesso de vitamina D na dieta, inflamação crônica da gengiva, predisposição genética) seguem sem confirmação.
|
|
|
|
|
II Painel da Caixa
Células que comem dente e uma gengiva que esconde o buraco
|
|
O dente do gato é remodelado por dentro durante a vida inteira. Os odontoclastos (células que dissolvem tecido duro) trabalham em equilíbrio com as células que reconstroem, e na lesão de reabsorção esse equilíbrio quebra: elas passam a destruir o dente vivo sem reposição.
A lesão começa quase sempre na junção entre o esmalte e o cemento (a camada que reveste a raiz), bem na linha da gengiva. Dali avança para dentro, atravessa a dentina e alcança a polpa, e nesse ponto dói ao toque, à mordida e ao frio.
|
Grão caindo da boca, cabeça inclinada ao mastigar ou queixo que treme ao comer pede exame de boca na semana. Gengiva vermelha subindo sobre um dente, baba ou recusa de ração seca pede radiografia intraoral, feita sob anestesia.
|
A lesão é comum em gato adulto. A veterinária britânica K. E. Ingham e colegas publicaram no Journal of Small Animal Practice, em 2001, o exame de 228 gatos considerados saudáveis, levados à clínica por outros motivos, e encontraram reabsorção em 29% deles. A chance cresce com a idade.
O American Veterinary Dental College (colégio americano de odontologia veterinária) classifica a lesão pela aparência da raiz na radiografia. No tipo 1, a raiz conserva o canal e o contorno, e o dente precisa sair inteiro. No tipo 2, a raiz já está sendo substituída por osso, e a amputação da coroa resolve.
Existe ainda o tipo 3, com raízes diferentes no mesmo dente, uma definida e outra já substituída. Cada raiz recebe o tratamento do seu tipo. Sem radiografia, a veterinária não tem como escolher entre extrair inteiro e amputar a coroa.
Os dentes mais atingidos são os pré-molares de baixo, os primeiros atrás do canino inferior. Por isso a olhada rápida que o tutor dá levantando o lábio da frente raramente encontra a lesão.
Obturar não funciona. Tentativas de fechar a cavidade com resina, como se faz na cárie humana, falharam porque a reabsorção continua por baixo do material. Extração e amputação da coroa são as saídas aceitas hoje.
A gengiva que cresce sobre o buraco engana quem olha. Ela parece uma inflamação simples, e tratar só a gengiva com antibiótico apaga a vermelhidão por alguns dias sem tocar na lesão, que segue avançando.
A dor raramente vira jejum. O gato segue comendo porque a fome vence o incômodo, e esse detalhe explica por que tantos casos só aparecem na consulta de rotina, como aconteceu com Tobias.
|
| |
|