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O jejum que o fígado não perdoa
Um gato que passa mais de 24 horas sem comer começa a despejar gordura no fígado, e a recusa da tigela vale como urgência sozinha.
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A tigela cheia da noite anterior, ao amanhecer
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Na tigela de cerâmica a ração da noite anterior continuava inteira, com o relevo circular que a medida deixou ao cair no pote. A gata dormia em cima da máquina de lavar havia catorze horas e tinha descido duas vezes, as duas para beber água e voltar.
Gato que atravessa um dia inteiro sem comer não está fazendo dieta. O fígado do felino responde à falta de caloria de um jeito próprio, e o estrago aparece em horas, não em meses de descuido alimentar.
Sem comida entrando, o corpo despacha gordura das reservas para o fígado, onde ela deveria virar energia. O felino mobiliza essa gordura depressa e a processa devagar, porque depende de arginina e de carnitina (dois aminoácidos que o fígado usa para empacotar e queimar gordura) que a espécie tira quase toda da proteína da refeição. Falta refeição, falta insumo, e a carga entra mais rápido do que sai.
O quadro que se forma tem nome: lipidose hepática, o acúmulo de gordura dentro das células do fígado. As células incham, o fluxo de bile trava, a gengiva e o branco do olho ganham tom amarelado, e o que começou como falta de apetite termina em internação com sonda de alimentação passada pelo esôfago.
O gato acima do peso corre risco maior, e o motivo é direto: quanto mais reserva o corpo tem para despejar, maior a carga que chega ao fígado num animal que parou de comer.
O jejum raramente se anuncia em casa. A ração espalha no pote e parece mexida, o comedouro de duas gatas esconde quem comeu, o petisco da noite dá a impressão de refeição feita, e a família só percebe quando o animal já emagreceu de verdade sob a pelagem comprida.
A recusa de comida não é sintoma secundário de outra doença. Ela é a emergência, mesmo quando a causa inicial parece banal: mudança de marca de ração, obra no prédio, visita em casa, dor de dente, tigela lavada com produto de cheiro forte.
O caso a seguir mostra uma família que descobriu o jejum pela balança da cozinha, depois de quatro dias lendo o pote errado.
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I O Que Ele Esconde
Nuvem, a balança de cozinha e os quatro dias lidos errado
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Quatro dias de tigela lida errado.
Nuvem, gata fêmea castrada, seis anos, pelo longo, seis quilos e quatrocentos antes do episódio, moradora de um apartamento em Santo André com outra gata e um casal, passou quatro dias sem comer sem que ninguém da casa notasse, porque as duas dividiam o mesmo comedouro. O tutor reconstruiu a linha do tempo depois, pelas fotos do celular e pelo recibo da clínica.
O comedouro ficava na cozinha e era enchido uma vez por dia, à noite, com duas medidas de ração seca. Pela manhã o pote aparecia pela metade, e a conta que a casa fazia era simples: as duas comeram.
A obra começou numa segunda-feira. O prédio trocou a tubulação do andar de cima, a furadeira trabalhou das oito às cinco por duas semanas, e Nuvem passou a dormir em cima da máquina de lavar, atrás da porta fechada da área de serviço.
A outra gata, Pipoca, três anos e mais ativa, comeu por duas. O pote continuou aparecendo pela metade toda manhã e a casa seguiu enchendo uma medida dupla por noite, sem desconfiar de nada no comportamento da dupla.
No quarto dia o tutor pegou Nuvem no colo e sentiu a coluna. O pelo longo tinha escondido a perda até ali, e a mão nas costelas encontrou um relevo que não existia na semana anterior.
A balança de cozinha deu o número. O tutor pesou a gata dentro da caixa de transporte, subtraiu o peso da caixa e chegou a cinco quilos e setecentos, setecentos gramas abaixo do registro da última consulta de rotina.
A clínica atendeu na manhã seguinte. A veterinária encontrou gengiva com tom amarelado, desidratação leve, fígado aumentado à palpação e um animal apático que não reagiu ao cheiro de sachê aberto embaixo do focinho.
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A balança de cozinha viu em um minuto o que o pote escondeu por quatro dias.
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O exame de sangue mostrou enzimas hepáticas elevadas e bilirrubina alta. O ultrassom descreveu fígado aumentado e de ecogenicidade elevada, achado compatível com acúmulo de gordura, e a veterinária fechou o diagnóstico de lipidose hepática secundária ao jejum.
O tratamento foi alimentar à força, e nada além. Nuvem ficou internada três dias com fluido na veia, recebeu uma sonda nasoesofágica no segundo dia e passou a receber dieta líquida hipercalórica em seis refeições diárias, calculadas pelo peso magro.
A sonda saiu da clínica junto com a gata. A família aprendeu a empurrar a dieta com seringa a cada quatro horas, manteve o esquema por dezenove dias em casa e só retirou o tubo quando a gata voltou a comer sozinha três refeições seguidas.
O apetite espontâneo voltou no décimo quarto dia. Nuvem comeu um sachê inteiro sem ajuda numa quinta-feira à noite, repetiu na sexta pela manhã e recuperou os setecentos gramas ao longo de sete semanas de acompanhamento.
A cozinha mudou de arranjo depois do episódio. O casal instalou dois comedouros em cômodos separados, passou a servir porção medida por gata e a anotar num papel colado na geladeira quem esvaziou qual pote, com a data e o horário da refeição.
A causa do jejum nunca foi isolada com certeza. A veterinária apontou a obra e o confinamento na área de serviço como gatilho provável, descartou problema dentário no exame de boca e não encontrou doença de base nos exames, e o tutor aceitou seguir sem resposta fechada para o motivo inicial.
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II Painel da Caixa
Gordura que entra rápido e sai devagar
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O fígado do gato não guarda gordura por acidente. Ele recebe a gordura que o tecido adiposo libera quando o corpo entende que falta energia, e deveria convertê-la em combustível e devolvê-la à circulação empacotada em lipoproteínas.
A espécie falha na saída, e não na entrada. A mobilização da reserva funciona rápido em qualquer mamífero, e o felino carrega um gargalo na etapa de exportação, com dependência alta de proteína da dieta para produzir o que embala e queima essa gordura.
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Um gato sem comer há mais de vinte e quatro horas já está despejando gordura no fígado, e o intervalo entre a última refeição recusada e a primeira gengiva amarelada costuma caber numa semana, muito antes de qualquer sinal que a família reconheça como doença.
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O animal obeso entra na conta com desvantagem. Reserva maior significa carga maior chegando ao fígado no mesmo período de jejum, e um gato de sete quilos que para de comer acumula mais gordura hepática do que um gato de quatro quilos parado pelo mesmo tempo.
A doença é quase sempre secundária. Pancreatite, doença inflamatória intestinal, problema dentário, doença renal, estresse de mudança e disputa por comedouro tiram o apetite primeiro, e a lipidose se instala em cima da recusa alimentar que veio antes.
Sharon A. Center, professora de medicina interna veterinária na Universidade Cornell, descreveu o quadro em artigo de revisão publicado na Veterinary Clinics of North America: Small Animal Practice, em 2005, com atenção ao papel do jejum e da obesidade na instalação da doença.
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"A lipidose hepática felina é a hepatopatia mais comum do gato na América do Norte, e se desenvolve a partir de um período de anorexia, com risco maior nos animais previamente obesos."
Sharon A. Center, Veterinary Clinics of North America: Small Animal Practice, 2005
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Os sinais chegam empilhados e tardios. Apatia, perda de peso sob o pelo, vômito, baba, gengiva e branco do olho amarelados, pescoço caído para frente em alguns casos, e nenhum deles aparece no primeiro dia de tigela cheia.
O tratamento não tem atalho farmacológico. A base é nutrição forçada por sonda, em volume calculado, mantida por semanas, somada à hidratação venosa e ao tratamento da doença que tirou o apetite, e o gato tratado cedo tem prognóstico bom.
O jejum por conta própria é a armadilha mais comum da casa. Esperar o animal sentir fome, oferecer comida melhor no dia seguinte, tentar jejum de vinte e quatro horas por vômito ou trocar a ração e aguardar a aceitação são condutas que alimentam a doença enquanto a família acredita estar cuidando.
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