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O lírio do vaso e os rins do gato
O pólen que cai no pelo entra pela língua na primeira limpeza, e a flor de presente vira a fonte mais comum de rim parado na espécie.
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O arranjo de lírios no aparador da sala
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Um arranjo de lírios brancos na mesa da sala parece o objeto mais inofensivo da casa. Ele chega embrulhado em celofane, ganha água numa jarra de vidro e fica ali, aberto, soltando pólen alaranjado sobre a toalha por uma semana inteira.
O gato não precisa comer a flor. Basta passar por baixo do arranjo e levar o pólen no lombo, na orelha ou na ponta da cauda. A limpeza vem logo depois, com a língua, e a dose entra pela boca sem que ninguém na casa tenha visto o bicho mastigar nada.
A planta inteira carrega a toxina. Pétala, pólen, folha, caule, bulbo e a água parada do vaso já apareceram como fonte de intoxicação em gato, e nenhuma dessas partes foi descartada como segura até hoje.
Os gêneros que importam têm nome científico. Lilium (os lírios verdadeiros, grupo que inclui o lírio de Páscoa, o tigrado e os híbridos asiáticos que dominam as floriculturas) e Hemerocallis (o lírio de São José, também chamado de lírio do dia) concentram os casos graves de rim. Plantas que só carregam a palavra lírio no nome popular, como o lírio da paz (Spathiphyllum), queimam a boca do gato com cristais de oxalato e poupam o filtro renal.
A substância responsável segue sem identificação química. O alvo dela, ao contrário, está descrito: as células do epitélio do túbulo proximal (o trecho do filtro renal encarregado de reabsorver água, sal e glicose) morrem em poucas horas, e o animal entra em lesão renal aguda com o rim inchado e incapaz de produzir urina.
A espécie muda o desfecho por completo. Cachorro que rói a mesma pétala costuma apresentar vômito passageiro e nada mais, e o mesmo material destrói o rim do gato, o que faz da flor um risco desenhado sob medida para uma casa com gato.
O tempo é o que sobra de favorável nessa história. O tratamento instituído dentro da primeira janela de horas devolve a maioria dos animais à vida normal, e a demora de um dia costuma trocar a alta pela diálise.
O caso a seguir mostra a sequência inteira dentro de uma casa comum, do buquê recebido de presente até o resultado do exame de sangue.
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I O Que Ele Esconde
Amora e o buquê que chegou numa sexta-feira
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Quatro dias de buquê no aparador da sala.
Amora, uma gata sem raça definida de pelo curto, dois anos e meio, castrada, moradora de um apartamento de segundo andar em Belo Horizonte, conviveu por quatro dias com um arranjo de lírios asiáticos que a tutora ganhou de uma colega de trabalho. O arranjo ficou no aparador da sala, altura de um metro e vinte, num ponto que a gata alcançava com dois pulos.
A tutora não viu a gata comer flor nenhuma. O que ela notou na terça-feira de manhã foram manchas alaranjadas no peito branco de Amora, que ela tomou por sujeira de comida e limpou com pano úmido.
A primeira mudança de comportamento chegou naquela mesma manhã. Amora recusou a ração úmida do café, ficou deitada atrás do sofá e vomitou duas vezes um líquido com espuma, sem pelo e sem alimento reconhecível dentro.
O intervalo de melhora enganou a casa. Ao meio-dia a gata voltou a andar, aceitou água na fonte e deixou de vomitar, e a tutora concluiu que o episódio tinha passado. A aparente recuperação entre doze e vinte e quatro horas após a ingestão está descrita na literatura como fase silenciosa da intoxicação por lírio.
À noite o quadro voltou pior. Amora estava prostrada, babando, com o pelo arrepiado na lombar e com a caixa de areia intacta desde a manhã, sem urina nenhuma na bandeja.
A pergunta da veterinária de plantão resolveu o caso em trinta segundos. Ela perguntou que plantas existiam no apartamento, a tutora citou o buquê, e a descrição da flor com estames longos e pólen alaranjado fechou a suspeita antes de qualquer exame.
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O pólen no peito branco era a dose, e ninguém em casa leu assim.
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O sangue confirmou a suspeita com folga. Creatinina em 5,8 miligramas por decilitro, ureia em 190 miligramas por decilitro, fósforo em 9,4 e potássio em 6,1, num animal de dois anos que fizera exame normal na castração nove meses antes.
O tratamento começou antes do resultado sair. Amora recebeu cateter venoso, fluidoterapia intravenosa em taxa de diurese, antiemético injetável e monitoramento do volume de urina produzido por sonda, porque o volume urinário é o sinal que separa o rim que responde do rim que parou.
A descontaminação chegou tarde e foi feita mesmo assim. A equipe deixou de induzir vômito e deu banho completo com sabão neutro, para tirar da pelagem o pólen que a gata continuaria lambendo na internação.
A urina voltou na madrugada do terceiro dia. O volume subiu de quase nada para acima do esperado, a creatinina caiu para 2,4 no quarto dia e para 1,6 no sétimo, e a gata recebeu alta com prescrição de acompanhamento renal semestral pelo resto da vida.
Amora ficou com marca permanente do episódio. A densidade urinária dela não voltou aos valores de antes, sinal de perda de capacidade de concentrar urina, e a veterinária classificou o quadro como doença renal crônica em estágio inicial, estável até a última consulta registrada.
O buquê saiu do apartamento na noite da internação. A colega que deu o presente desconhecia o risco da flor para gato, e a floricultura não trazia aviso no cartão nem na embalagem.
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II Painel da Caixa
Doze pétalas, dois estudos e o relógio de seis horas
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O primeiro registro da associação é antigo e vem de um centro de intoxicação. Jill Hall descreveu, em 1992, na revista do American Association of Veterinary Laboratory Diagnosticians, casos de gatos que desenvolveram falência renal aguda após contato com lírio de Páscoa, e o achado tirou a planta da lista de vegetais apenas irritantes.
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Catherine Langston publicou no Journal of the American Veterinary Medical Association, em 2002, a série de seis gatos com falência renal aguda causada por ingestão de lírio, e os cinco animais que receberam fluidoterapia intravenosa nas primeiras dezoito horas sobreviveram, enquanto o animal tratado depois desse intervalo evoluiu para anúria.
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A quantidade necessária desmonta a ideia de mordida grande. Kevin Fitzgerald registrou em Topics in Companion Animal Medicine, em 2010, que a ingestão de duas pétalas ou de parte de uma folha já produziu lesão renal em gato, e que o pólen aderido à pelagem serve de via de entrada durante a limpeza.
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"Todas as partes da planta são tóxicas, e a quantidade de material vegetal necessária para causar lesão renal grave no gato é pequena o bastante para que a ingestão passe despercebida pelo proprietário."
Kevin T. Fitzgerald, Topics in Companion Animal Medicine, 2010
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Os sinais chegam em ordem previsível. Vômito e salivação nas primeiras duas horas, melhora aparente entre doze e vinte e quatro horas, e retorno do quadro com prostração, desidratação e queda na produção de urina a partir do segundo dia, quando o túbulo renal já sofreu a maior parte do dano.
O exame de sangue tem um traço que chama atenção do clínico. A creatinina sobe de forma desproporcional à ureia nos casos de lírio, resultado que aparece cedo e que ajuda a separar o quadro de uma gastrite comum de fim de semana.
O prognóstico acompanha o relógio, não a gravidade do vômito. Animal atendido nas primeiras seis horas, com lavagem gástrica ou carvão ativado e fluidoterapia iniciada, costuma normalizar a função renal em uma semana, e o que chega com quarenta e oito horas de evolução entra na fila de hemodiálise, recurso disponível em poucos centros do país.
A confusão de nomes populares atrapalha o atendimento. Copo de leite, lírio da paz, lírio aranha e clívia recebem o rótulo de lírio na conversa de casa e pertencem a outras famílias botânicas, com efeito limitado a irritação de boca e de trato digestivo, sem ataque ao rim.
O calendário concentra os casos. A Páscoa, o Dia das Mães e a temporada de casamentos empurram lírio para dentro de casas que nunca compraram flor no resto do ano, e os centros de intoxicação animal registram picos de atendimento nessas semanas.
O gato de apartamento corre risco maior que o de quintal. Ele procura folha verde por curiosidade e encontra no arranjo recém-chegado a novidade vegetal do ambiente.
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