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O miado de madrugada que pede exame de sangue

Gato idoso que passa a miar alto no corredor vazio pode ter pressão alta, tireoide acelerada ou dor nas juntas. A consulta vem antes da paciência.

Gato laranja idoso sentado num corredor escuro, de madrugada.

O corredor vazio às três da manhã

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Terça-feira, três e dez da manhã, num apartamento do Juvevê, em Curitiba. O corredor que liga a sala aos quartos está escuro e vazio. No meio dele, sentado no piso de madeira, um gato laranja de treze anos olha para a parede e solta um miado longo, grave, que atravessa as duas portas fechadas.

Ninguém chamou o gato. A tigela tem ração, a água foi trocada à noite, a caixa de areia está limpa. Mesmo assim o miado volta a cada dez ou quinze minutos, até perto das cinco.

A dona da casa conta as noites num caderno da cozinha. Em três semanas foram dezessete madrugadas com miado. O marido dorme com protetor de ouvido. A vizinha de baixo deixou um bilhete educado na porta.

Os palpites chegaram rápido, todos com a mesma lógica: é a idade. Gato velho fica carente, quer companhia, perdeu a noção da hora. Alguém sugeriu deixar a porta do quarto aberta. Outro mandou ignorar, porque responder ensina o gato a gritar.

A família tentou as duas receitas. Com a porta aberta, o gato entrou, subiu na cama, desceu e voltou para o corredor para miar ali. Ignorado, miou mais forte.

Nenhum palpite tratou o miado como sintoma. Um gato de treze anos que muda um hábito de uma década, em poucas semanas, sem nada novo na casa, está dizendo que algo mudou dentro dele. Na idade dele, as três primeiras suspeitas de um veterinário têm nome de exame: pressão arterial, hormônio da tireoide e articulação.

Nenhuma delas aparece a olho nu. Pressão alta não deixa marca no pelo. Tireoide acelerada pode até deixar o gato com cara de mais disposto. E gato com dor quase nunca manca na frente de quem cuida dele.

A resposta começa numa sala de consulta, com um aparelho de pressão do tamanho de uma pata e um tubo de sangue.

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I  O Que Ele Esconde

Três suspeitos sem sintoma à vista

Tobias Ferraz Lima, gato sem raça definida, laranja, castrado, treze anos e quatro quilos e cem gramas, mora com Helena Ferraz Lima e o marido num apartamento do Juvevê, em Curitiba. Helena o adotou filhote, numa feira de adoção, e nunca o tinha ouvido miar de madrugada.

Na quarta semana de noites quebradas, Helena levou Tobias à veterinária Renata Sato Albuquerque, que atende só gatos numa clínica do bairro Água Verde. Renata não começou pelo comportamento. Começou pela balança: Tobias tinha perdido trezentos gramas desde a vacina do ano anterior, comendo a mesma quantidade.

Ela explicou a lista de suspeitos na ordem em que costuma riscá-los.

Pressão alta. Em gatos, a hipertensão (pressão do sangue acima do normal dentro das artérias) quase sempre vem acompanhando outra doença, em geral rim cansado ou tireoide acelerada. O gato não sente dor de cabeça visível nem fica vermelho. O primeiro alvo costuma ser a retina (a camada do fundo do olho que capta a luz): ela pode inchar, sangrar ou descolar, e o gato perde parte da visão sem aviso. Um gato que de repente enxerga pior no escuro fica desorientado à noite e chama.

Tireoide acelerada. O hipertireoidismo (a glândula do pescoço produzindo hormônio demais) é o distúrbio hormonal mais comum em gatos idosos. O hormônio em excesso acelera o coração, aumenta a fome, derrete o peso e deixa o gato inquieto, com sono picado. O retrato clássico é o gato velho que come muito, emagrece e anda pela casa de madrugada.

Dor nas juntas. A osteoartrite (desgaste da cartilagem que cobre a ponta dos ossos) atinge boa parte dos gatos idosos e passa despercebida porque o gato se adapta. Ele para de pular no armário, desce da cama em dois tempos, usa a cadeira como degrau. A dor costuma piorar depois de horas parado, e a madrugada é justamente quando o gato sai da posição de sono.

O gato idoso esconde a doença no comportamento: o miado novo costuma ser o sintoma que ele consegue mostrar.

Renata ainda citou um quarto suspeito, que só entra na lista depois dos outros três: a síndrome da disfunção cognitiva (o envelhecimento do cérebro felino, parecido com a demência humana). Ela causa confusão noturna e miado sem motivo, mas o diagnóstico é por exclusão. Só se pensa nela quando sangue, pressão e juntas saem limpos.

Daí a consulta de Tobias ter três etapas no mesmo dia: medir a pressão, colher sangue e examinar as articulações com as mãos.

 
 

II  Painel da Caixa

Os números que o corredor escondia

A pressão foi medida primeiro, antes do sangue, para Tobias não chegar estressado à leitura. Renata usou um aparelho Doppler (que capta o som do fluxo do sangue na artéria) com uma braçadeira pequena na pata dianteira, numa sala silenciosa, com Helena ao lado. Ela descartou a primeira leitura e fez a média das cinco seguintes.

Primeiro número, a pressão. A média de Tobias deu 190 de pressão sistólica (a máxima, no momento em que o coração bate). Renata repetiu a medição vinte minutos depois, com o gato mais calmo, e o valor se manteve.

Segundo número, o fundo do olho. Com uma lanterna própria e o colírio que dilata a pupila, Renata examinou a retina. Encontrou pequenas manchas de sangue no olho esquerdo. Ainda sem descolamento, mas o suficiente para explicar por que Tobias parecia perdido no corredor escuro.

Terceiro número, o sangue. O exame do dia seguinte trouxe o T4 total (a dosagem do principal hormônio da tireoide) acima do limite do laboratório. A creatinina e o SDMA (dois marcadores de quanto o rim filtra) estavam no limite alto do normal, sinal para acompanhar, não para tratar ainda.

Quarto número, as juntas. Na palpação, Tobias reagiu ao toque nos dois joelhos e no quadril, puxando a perna. O raio X mostrou desgaste nos dois joelhos.

Um único miado reunia três doenças: a tireoide puxava a pressão para cima, a pressão atingia o olho, e o joelho doía cada vez que ele levantava.

As diretrizes de hipertensão felina da Sociedade Internacional de Medicina Felina, publicadas em 2017 no Journal of Feline Medicine and Surgery, recomendam medir a pressão de todo gato a partir dos sete anos, e com mais frequência a partir dos dez. O texto também lista a vocalização noturna entre os sinais que levam o veterinário a medir a pressão na hora.

Renata deixou com Helena a lista de sinais que, num gato idoso, pedem consulta na mesma semana, sem esperar o miado passar sozinho:

• Miado alto e novo, principalmente à noite, num gato que nunca vocalizou.

• Perda de peso com apetite igual ou maior.

• Pupilas dilatadas no claro, esbarrões em móveis ou olho com sangue.

• Gato que deixou de pular em lugares altos que sempre usava.

• Água bebida em excesso e caixa com torrões maiores.

Pupila que não fecha na luz ou cegueira repentina é urgência, para o mesmo dia. A retina descolada por pressão alta só tem chance de voltar ao lugar se a pressão cair rápido.

 
 

III  Mapa do Território

O apartamento ajustado para um gato de 13 anos

O tratamento começou pela tireoide e pela pressão, ao mesmo tempo. Renata receitou metimazol (remédio que freia a produção do hormônio da tireoide) em gel aplicado na parte interna da orelha, porque Tobias cuspia comprimido. Para a pressão, receitou anlodipino (remédio que relaxa as artérias), em comprimido escondido num petisco pastoso.

Para a dor, ela pesou o rim antes de escolher. Com a creatinina no limite, deixou de lado os anti-inflamatórios comuns e indicou o frunevetmab (anticorpo injetável contra a dor da artrite), aplicado na clínica a cada quatro semanas.

A outra metade do plano ficou com Helena, dentro do apartamento:

1. Acenda uma luz noturna fraca no corredor e outra perto da caixa de areia. Gato com visão afetada se orienta melhor com um ponto de luz fixo.

2. Coloque degraus ou uma banqueta baixa ao lado da cama e do sofá, para ele subir sem salto.

3. Troque a caixa de areia por uma de borda baixa, de até dez centímetros, fácil de entrar com joelho dolorido.

4. Ponha uma segunda tigela de água e uma segunda caixa perto do quarto, para encurtar o caminho noturno.

5. Faça uma sessão de brincadeira calma e ofereça uma refeição pequena antes de dormir. Gato que gasta energia e come à noite tende a dormir mais horas seguidas.

6. Não brigue com o miado. Um gato que enxerga mal e sente dor chama porque está desorientado, e a bronca aumenta o estresse.

Helena marcou o retorno para a terceira semana, como Renata pediu. A pressão de Tobias tinha caído para 150. O T4 desceu para dentro da faixa normal no exame da sexta semana, e as manchas de sangue no olho esquerdo foram absorvidas. Ele recuperou cento e oitenta gramas.

O caderno da cozinha registrou a mudança. Na segunda semana de remédio, os miados caíram para três madrugadas. Depois da segunda injeção para dor, Tobias voltou a dormir no pé da cama até as seis. Nas últimas quatro semanas anotadas, o corredor ficou em silêncio.

Duas perguntas ficaram em aberto, e Renata as disse com todas as letras. O rim de Tobias segue no limite, e ninguém sabe se ele vai piorar nos próximos anos: o controle é exame de sangue e pressão a cada três meses. E a disfunção cognitiva não foi descartada para sempre, só deixou de ser necessária para explicar o miado. Se o gato voltar a chamar de madrugada com pressão e tireoide controladas, ela volta à lista.

A vizinha de baixo mandou outro bilhete, agradecendo o silêncio.

Antes de pedir paciência ao gato idoso que mia de madrugada, peça pressão, sangue e um exame das juntas.

“Seu gato idoso mudou algum hábito de noite nos últimos meses, e alguém já mediu a pressão dele?”

 
 
 
Quiz da edição

Qual foi a média da pressão sistólica medida em Tobias no aparelho Doppler?

A140
B190
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