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Um vídeo de celular de trinta segundos mudou a consulta.
Mel, gata siamesa de catorze anos, quatro quilos e meio, moradora de um apartamento em Curitiba, chegou à consulta com a queixa de que tinha ficado ranzinza, e saiu de lá com diagnóstico de osteoartrite em cotovelos e coluna lombar, confirmado por radiografia no mesmo dia. A tutora, Regina Tavares Amorim, levou o celular com um vídeo gravado de manhã, e foi o vídeo que virou a consulta.
A mudança tinha começado devagar no ano anterior. Mel dormia no topo da estante da sala, a dois metros do chão, e trocou o posto pela poltrona de veludo, quarenta centímetros de altura. A casa achou a troca uma escolha de conforto.
Depois veio o modo novo de subir na cama. A gata apoiava as dianteiras no colchão, empurrava o corpo com as traseiras e arrastava a barriga pela beirada, esforço que nunca tinha precisado fazer.
Regina notou também que o pelo das costas tinha mudado de textura. Havia nós pequenos na lombar e na base da cauda, área que Mel sempre lambeu sozinha, e a pelagem do resto do corpo continuava impecável.
O sinal que fez a tutora marcar consulta foi outro. Mel passou a dar patada e a rosnar quando alguém a pegava no colo pela barriga, atitude nova numa gata que dormia no braço de visita.
Na clínica, a veterinária Camila Brandão Reis assistiu ao vídeo de trinta segundos antes de tocar no animal. A gravação mostrava Mel parando diante da poltrona, agachando duas vezes, apoiando a pata numa caixa de papelão ao lado e subindo pelo degrau improvisado.
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A gata não tinha ficado ranzinza, tinha ficado dolorida.
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O exame físico veio em seguida, com o animal no chão da sala de consulta e sem contenção. A veterinária flexionou cada membro devagar, encontrou resistência nos dois cotovelos, ouviu um estalo seco no direito e viu a gata contrair o dorso quando a mão desceu pela lombar.
A radiografia confirmou o quadro em três pontos. Havia esporão ósseo nos dois cotovelos, espaço articular reduzido no direito e pontes de osso novo entre duas vértebras lombares, formação que trava o movimento da coluna.
O sangue foi colhido no mesmo dia, com exame de função renal e de tireoide, porque a escolha do analgésico em gato velho depende do rim.
O tratamento começou com frunevetmabe, anticorpo monoclonal aplicado por injeção sob a pele, uma vez por mês, desenvolvido para bloquear o sinal de dor da osteoartrite felina. Mel recebeu também um curso curto de anti-inflamatório oral em dose baixa nas duas primeiras semanas, com peso e hidratação acompanhados.
Regina recebeu uma lista de mudanças físicas no apartamento, e a lista custou menos que a consulta. Um banquinho de madeira encostado na poltrona. Uma rampa de carpete até a cama. A caixa de areia trocada por uma bandeja de borda baixa, com entrada rebaixada de um lado. Tigelas de comida e água subidas para a altura do peito da gata, num suporte de dez centímetros.
O resultado apareceu na terceira semana, e apareceu primeiro no comportamento. Mel voltou a dormir esticada de lado em vez de encolhida, aceitou colo sem rosnar e reapareceu no topo da estante uma vez, usando o banquinho e a poltrona como escada.
O desgaste do cotovelo dela continua lá, e continuará. A veterinária explicou a Regina que cartilagem gasta não volta a crescer, que a meta do tratamento é manter o animal sem dor e em movimento, e que a aplicação mensal segue enquanto a resposta durar.
Uma pergunta ficou sem resposta na ficha de Mel, e a clínica registrou a lacuna com essas palavras: não há como datar o início do desgaste. A gata nunca tinha feito radiografia de articulação, não houve trauma registrado na vida dela e o primeiro exame só existiu aos catorze anos, quando o processo já estava maduro.
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