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O ronronar com as patas escondidas
A mesma vibração aparece no gato com dor, e a postura encolhida com as patas sob o corpo e a orelha virada pra trás separa uma cena da outra.
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O gato encolhido, ronronando no sofá
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O ronronar chega pelo peito antes de chegar pelo ouvido. O tutor sente a vibração na palma da mão, conclui que o animal está satisfeito e segue a noite tranquilo, porque a associação entre ronronar e contentamento está montada na cabeça de quem convive com gato desde a primeira infância.
A vibração tem faixa medida. Elizabeth von Muggenthaler, do Fauna Communications Research Institute, apresentou em 2001 na reunião da Acoustical Society of America o registro de ronronar de felinos domésticos entre 25 e 150 hertz, faixa que o corpo humano percebe como toque.
O gato produz a vibração em situações que não têm nada de agradáveis. Gata em trabalho de parto ronrona. Gato na mesa de exame ronrona. Gato com fratura de bacia, com obstrução urinária ou em cuidado de fim de vida ronrona, e o registro clínico dessas cenas é rotina em pronto atendimento veterinário.
A vibração sozinha não diz o estado do animal. Ela funciona como um sinal de contexto amplo, e quem lê só a vibração perde a informação inteira, porque o corpo do gato conta o resto em outro canal.
O resto mora na postura. Gato em contentamento deita com o flanco aberto, as patas soltas, a barriga acessível, o rabo relaxado e as orelhas apontadas para a frente. Gato em sofrimento encolhe a coluna, recolhe as quatro patas debaixo do corpo, aperta o abdômen contra o chão, gira as orelhas para trás e reduz a fenda dos olhos, e faz tudo com a vibração ligada.
O erro de leitura custa horas. Tutor que confunde ronronar de dor com ronronar de conforto adia a consulta, e as doenças desse quadro trabalham em relógio curto, com a obstrução urinária do macho na frente.
O caso a seguir mostra uma noite inteira de leitura errada dentro de uma casa comum, do primeiro colo até o cateter na clínica.
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I O Que Ele Esconde
Tiziu e a noite em que o colo enganou a casa
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Quarenta minutos de ronronar no colo do tutor.
Tiziu, um gato macho castrado de pelo curto, quatro anos, cinco quilos e duzentos, morador de um apartamento em Curitiba com um segundo gato e sem acesso à rua, passou uma noite inteira ronronando no colo do tutor com uma obstrução uretral em curso. O tutor registrou a cena em vídeo porque achou o carinho incomum e queria mostrar para a companheira no dia seguinte.
O comportamento tinha mudado na tarde anterior. Tiziu, que dormia sempre no alto da estante, desceu e ficou dentro da caixa de transporte do corredor, lugar que ele evitava desde filhote.
O tutor interpretou a procura por colo como afeto. Por volta das dez da noite o gato subiu no sofá, encostou no peito dele e começou a ronronar num volume que a casa reconhecia como pedido de carinho, e o tutor correspondeu com massagem na base do rabo.
O vídeo guardou o que ninguém viu ao vivo. Nas imagens, Tiziu está com as quatro patas recolhidas sob o corpo, a coluna curvada para cima, as orelhas giradas para trás e para os lados numa posição que a etologia chama de orelha de avião, e os olhos em fenda estreita, sem piscar.
A vibração saiu de um corpo travado. O gato manteve o ronronar por mais de quarenta minutos sem mudar de posição uma vez, sem esticar uma pata, sem rolar o flanco para cima e sem a amassadinha de patas dianteiras que ele fazia em toda sessão de carinho da rotina.
A caixa de areia contava a outra metade da história. O tutor viu Tiziu entrar na bandeja quatro vezes ao longo da noite, se agachar por um tempo longo e sair sem deixar bola de urina nenhuma, e leu as idas repetidas como enjoo do granulado novo.
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As patas recolhidas eram o aviso, e a casa leu a vibração como carinho.
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A madrugada mostrou o quadro sem disfarce. Às quatro da manhã o gato vocalizou um miado grave dentro da caixa de areia, lambeu o prepúcio de forma insistente e deitou de lado, e o tutor percebeu a barriga dura ao apoiar a mão.
A clínica recebeu o animal às cinco e vinte. O exame físico encontrou bexiga distendida do tamanho de uma laranja, dolorosa à palpação, e temperatura de 36,9 graus.
O sangue explicou a apatia. Potássio em 7,4 miliequivalentes por litro, creatinina em 4,1 miligramas por decilitro e ureia em 168, quadro de hipercalemia que já alterava o traçado do eletrocardiograma com onda P achatada.
O desentupimento aconteceu sob anestesia. A equipe passou sonda uretral, drenou setecentos mililitros de urina escura, deixou o cateter fixo por três dias e corrigiu o potássio, e Tiziu urinou sozinho quarenta horas depois da retirada da sonda.
O diagnóstico final ganhou nome completo. A obstrução veio de um tampão de muco e cristais de estruvita associado à cistite idiopática felina, e o gato recebeu alta no quinto dia com dieta úmida, fonte de água corrente e ampliação do número de caixas de areia no apartamento.
O tutor voltou ao vídeo com a veterinária na consulta de retorno. Ela apontou na tela as patas escondidas, a orelha virada e a fenda dos olhos, e explicou que o ronronar daquela noite acompanhava um animal em dor, não um animal pedindo carinho.
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II Painel da Caixa
Orelha de avião, focinho tenso e as notas do rosto
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O ronronar nasce numa contração muscular rápida da laringe. As pregas vocais se abrem e fecham entre vinte e trinta vezes por segundo, o ar passa na inspiração e na expiração, e o resultado é uma vibração contínua que não exige pausa para respirar, característica que separa o ronronar do miado.
A função social do ronronar tem registro experimental. Karen McComb publicou na Current Biology, em 2009, a descrição do ronronar de solicitação, uma variante em que o gato embute no ronronar um componente agudo próximo à frequência do choro de bebê humano, e voluntários classificaram essa variante como mais urgente e mais desagradável que o ronronar comum.
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O rosto do gato carrega a informação que a vibração esconde, e existe instrumento validado para ler esse rosto: Marina Evangelista e Paulo Steagall publicaram na Scientific Reports, em 2019, a Feline Grimace Scale (escala de careta felina), que pontua cinco unidades de ação do rosto, posição da orelha, aperto dos olhos, tensão do focinho, posição do bigode e posição da cabeça, cada uma de zero a dois.
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A escala funciona na mão de leigo. O grupo de Steagall mostrou em estudo posterior que pessoas sem treinamento veterinário chegam a pontuações próximas às dos avaliadores experientes depois de uma instrução curta, o que transforma a ferramenta em recurso doméstico.
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"A posição da orelha e o aperto dos olhos foram as unidades de ação com maior peso na discriminação entre gatos com dor e gatos sem dor."
Marina C. Evangelista, Scientific Reports, 2019
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A escala escocesa mede pelo comportamento. Jacky Reid e Andrea Wright publicaram, em 2017, a versão felina da Glasgow Composite Measure Pain Scale (escala composta de dor de Glasgow), que combina resposta ao toque, postura e expressão facial, com corte de analgesia em cinco pontos de vinte.
A postura encolhida tem nome técnico e função. O animal em dor abdominal adota o que a clínica chama de posição de prece ou de esfinge tensa, com o esterno no chão, as patas dianteiras recolhidas e a lombar arqueada, arranjo que reduz a pressão sobre o abdômen e que o gato sustenta por horas sem trocar de lado.
O esconderijo entra na mesma leitura. Gato em sofrimento procura lugar fechado, escuro e apertado, dentro do armário, atrás da máquina de lavar ou na caixa de transporte, e a mudança repentina de dormitório favorito pesa mais que a vibração no peito.
A ausência de queixa alta engana a casa inteira. O felino doméstico descende de espécie solitária que ocupa posição de presa e de predador ao mesmo tempo, e o comportamento de mascarar fraqueza permanece intacto no animal de apartamento, o que atrasa a percepção do tutor em dias.
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